segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Capítulo 10 - Teoria

10. Teoria.

- Posso fazer apenas mais uma pergunta? – Perguntou em vez de responder ao meu pedido.
Eu estava nervoso, à espera do pior. Mas ainda assim, tão tentador que era prolongar este momento. Ter Bella comigo, de boa vontade, só por mais alguns segundos. Suspirei face ao dilema, e depois disse, - Só uma.
- Bem… - Hesitou por um momento, como se a decidir que pergunta fazer em voz alta. – Disseste que sabias que eu não entrara na livraria e que me dirigira para Sul. Estava apenas a interrogar-me como é que sabias isso.
Olhei para fora do pára-brisas. Aqui estava outra questão que não revelava nada sobre ela, e demasiado sobre mim.
- Pensei que já tínhamos superado todas as atitudes evasivas – Disse ela com um tom crítico e desapontado.
Que irónico. Ela estava a ser cruelmente evasiva sem sequer tentar.
Bem, ela queria que eu fosse directo. E esta conversa não ia para nenhum lado bom de qualquer forma.
- Então muito bem. – Disse-lhe – Segui o teu cheiro.
Eu queria ver a cara dela, mas tive medo do que poderia ver. Em vez disso, ouvi a respiração dela acelerar e de seguida a regularizar. Falou novamente depois de um momento, e a voz dela estava mais estável do que eu estava à espera.
- E, então, não respondeste a uma das minhas primeiras perguntas… - Disse ela.
Eu olhei para baixo, na direcção dela, com uma cara reprovadora. Ela também estava a empatar.
- Qual?
- Como é que funciona a questão da adivinhação do pensamento? - Perguntou, repetindo a pergunta do restaurante. – Consegues adivinhar os pensamentos de qualquer pessoa, em qualquer lugar? Como é que consegues? O resto da tua família também pode…? – Calou-se, a corar outra vez.
- Isso é mais do que uma pergunta. – Disse-lhe.
Ela simplesmente olhou para mim, à espera das suas respostas.
E por que não contar-lhe? Ela já tinha adivinhado a maior parte disto, e era um assunto mais fácil do que aquele que se aproximava.
- Não, só eu é que posso. E não consigo auscultar qualquer pessoas, em qualquer lugar. Tenho de estar relativamente próximo. Quanto mais conhecida é a… “voz” de uma pessoa, maior é distância a que consigo auscultá-la. Mas, mesmo assim, a não mais do que alguns quilómetros. - Eu tentei pensar nalguma maneira de descrever isto para que ela percebesse. Uma analogia à qual ela se podia relacionar. – Assemelha-se um pouco a estar num enorme salão cheio de pessoas, com toda a gente a falar ao mesmo tempo. É apenas um murmúrio, um burburinho de vozes ao fundo. Até me concentrar num única voz e, então, o que essa pessoa estiver a pensar torna-se claro para mim. Durante a maior parte do tempo, desligo-me simplesmente de tudo isso, é muito perturbador. E, depois, é mais fácil parecer normal. - Fiz uma careta – Quando não estou acidentalmente a responder aos pensamentos de alguém em vez de responder às suas palavras.
- Por que motivo julgas que não me consegues ouvir? - Perguntou.
- Não sei. - Admiti. – O meu único palpite é que talvez a tua mente não funcione da mesma forma que a das restantes pessoas, como se os teus pensamentos estivessem na frequência AM e eu só conseguisse sintonizar em FM.
Percebi que ela não ia gostar desta analogia. A antecipação da reacção dela fez-me sorrir. Ela não me desapontou.
- A minha mente não funciona convenientemente? - Perguntou, com a voz a aumentar de tom com desgosto. – Sou uma aberração?
Ah, a ironia outra vez.
- Ouço vozes dentro da minha cabeça e tu é que estás preocupada com a possibilidade de seres uma aberração – Ri-me. Ela percebia todas as coisas pequenas, e ainda assim ignorava as grandes. Sempre os instintos errados…
A Bella estava a morder o lábio, e as rugas entre os olhos aprofundaram-se.
- Não te preocupes – Assegurei-a – Trata-se apenas de uma teoria. - E havia uma teoria mais importante para ser discutida. Eu estava ansioso por despachar este assunto. Cada segundo que passava parecia mais e mais como um tempo roubado.
- O que nos leva novamente a ti. - Disse, dividido em dois, ambos ansiosos e relutante.
Ela suspirou, ainda a morder o lábio - eu estava preocupado que ela se magoasse a ela própria. Olhou-me nos olhos, com o rosto confuso.
- Não superámos já todas as atitudes evasivas? - Perguntei calmamente.
Olhou para baixo, a debater-se com algum dilema interno. De repente, o corpo dela ficou rígido e os olhos arregalaram-se. O medo passou pelos olhos dela pela primeira vez.
- Valha-me Deus! – Sobressaltou-se.
Entrei em pânico. O que é que ela tinha visto? Como é que eu a tinha a apavorado?
Então gritou. – Abranda!
- O que é que se passa? - Eu não percebi de onde é que vinha o terror dela.
- Vais a cento e sessenta quilómetros por hora! – Gritou-me. Ela. Olhou para fora da janela e viu as árvores negras a passarem rapidamente por nós.
Esta coisinha, só um bocado de velocidade, fê-la gritar com medo?
Revirei os olhos. – Descontrai-te Bella.
- Estás a tentar fazer com que ambos morramos? – Exigiu saber, a sua voz alta e firme.
- Não vamos bater. – Prometi-lhe.
Ela inspirou ansiosamente, e depois falou num tom levemente mais moderado. – Porque estás com tanta pressa?
- Conduzo sempre desta forma.
Encontrei o olhar dela, a divertir-me com a expressão chocada dela.
- Não tires os olhos da estrada! - Gritou.
- Nunca me envolvi num acidente Bella. Nunca fui sequer autuado. - Sorri e depois toquei na minha testa. Tornava isto ainda mais cómico – o facto de ser absurdo ser capaz de fazer piadas com ela sobre algo tão secreto e estranho. – Detector de radar incorporado.
- Muito engraçado - Disse sarcasticamente, com a voz mais assustada do que com raiva. – O Charlie é polícia, lembras-te? Fui educada para obedecer às regras de trânsito. Além disso, se nos transformares numa rosquilha da marca Volvo a envolver o tronco de uma árvore, podes provavelmente sair ileso.
- Provavelmente. - Repeti, e depois ri-me sem humor. Sim, nós pagaríamos um preço um bocado diferente num acidente de carro. Ela tinha razão em estar com medo, a respeito das minhas qualidades de condução… - Mas tu não.
Com um suspiro, deixei o carro diminuir de velocidade. – Satisfeita?
Olhou para o velocímetro - Quase.
Isto ainda era demasiado rápido para ela? – Detesto conduzir devagar - Murmurei, mas deixei o ponteiro cair mais um bocado.
- Isto é devagar? - Perguntou.
- Já chega de comentários sobre a minha condução - Disse impacientemente. Quantas vezes, até agora é que ela já se tinha desviado da minha pergunta? Três vezes? Quatro? Eram as especulações dela assim tão horríveis? Eu tinha que saber, imediatamente. – Ainda estou à espera de ouvir a tua mais recente teoria.
Ela mordeu o lábio outra vez, e a expressão dela se tornou-se preocupada, quase a sofrer.
Dominei a minha impaciência e suavizei a voz. Eu não queria que ela ficasse stressada.
- Eu não me rio. - Prometi, a desejar que esse fosse o único obstáculo que a estivesse a impedir de falar.
- Receio mais que fiques zangado comigo - Sussurrou.
Forcei a minha voz para ficar equivalente – É assim tão má?
- Sim, bastante.
Ela olhou para baixo, recusando-se a olhar-me nos olhos. Os segundos passavam.
- Continua. - Encorajei.
Falava em voz baixa – Não sei por onde começar.
- Porque não começas pelo princípio? – Lembrei-a das suas palavras antes do jantar. – Disseste que não a elaboraste sozinha.
- Pois não. - Concordou, e depois ficou silêncio de novo.
Pensei em coisas que a pudessem ter inspirado. – O que é que a desencadeou? Um livro? Um filme?
Eu devia ter dado uma olhadela na sua colecção quando ela estava fora da casa. Eu não fazia ideia se Bram Stoker ou Anne Rice estavam naquela pilha de livros usados…
- Não - Disse outra vez – Foi o dia de sábado, na praia.
Não estava à espera daquela. A bisbilhotice local sobre nós nunca tinha dado em nada demasiado bizarro, ou demasiado preciso. Havia algum rumor novo que me tivesse escapado? Bella desviou o olhar das suas mãos e viu a surpresa no meu rosto.
- Encontrei um velho amigo de família, Jacob Black - Continuou – O pai dele e o Charlie são amigos desde que eu era bebé.
Jacob Black, o nome não me era familiar, mas mesmo assim lembrava-me de alguma coisa… há algum tempo, tempo atrás… Olhei para o pára-brisas, a procurar através das memórias a tentar encontrar alguma conexão.
- O pai dele é um dos anciãos Quileutes. – Disse ela.
Jacob Black. Ephraim Black. Um descendente, sem dúvida.
Não podia ficar pior do que isto.
Ela sabia da verdade.
A minha mente estava a voar pelas ramificações enquanto o carro passava à volta das curvas escuras da estrada, o meu corpo rígido, com angústia, a movimentar-se apenas o necessário para conduzir o carro.
Mas… se ela tinha descoberto a verdade no sábado… então ela soube disso a noite inteira… e ainda assim…
- Fomos dar uma volta – Continuou ela. – E ele contou-me algumas lendas antigas, tentando assustar-me, creio eu. Contou-me uma…
Parou, mas não havia necessidade para ela ficar apreensiva agora. Eu sabia o que é que ela ia dizer. O único mistério que restava era por que é que ela estava sentada aqui comigo.
- Continua – Disse-lhe.
- Sobre vampiros - Sussurrou, as palavras saíram mais baixas do que um suspiro.
De alguma forma, era ainda pior do que saber que ela sabia, ouvi-la dizer a palavra em voz alta. Encolhi-me com o som daquilo, e depois controlei-me novamente.
- E pensaste imediatamente em mim? - Perguntei.
- Não. Ele… mencionou a tua família.
Que irónico ter sido o próprio descendente de Ephraim a violar o tratado que ele próprio jurou manter. Um neto, ou bisneto talvez. Quantos anos tinham se passado? Dezassete?
Eu devia ter percebido que não era o velho que acreditava nas lendas que seria o perigo. É claro, a nova geração, aqueles que tinham sido avisados mas que tinham achado as superstições antigas ridículas, é claro que era aí que estava o perigo da exposição.
Supus que isto significava que agora eu era livre para matar a pequena, indefesa tribo na costa, a que eu estava tão disposto. Ephraim e a sua matilha de protectores há muito que estavam mortos…
- Ele pensava apenas que se tratava de uma superstição tola – Disse Bella de repente, a voz dela ficou mais aguda com uma nova ansiedade. – Não esperava que eu daí retirasse alguma coisa.
Pelo canto do olho vi-a a torcer as mãos inquietamente.
- A culpa foi minha - Disse depois de uma breve pausa, depois inclinou a cabeça como se estivesse envergonhada – Obriguei-o a contar-me.
- Porquê? – Agora não era tão difícil manter o nível da minha voz. O pior já estava feito. Desde que falássemos dos detalhes da revelação, não tínhamos que avançar para as consequências disso.
- A Lauren disso algo a teu respeito, estava a tentar provocar-me - Fez uma pequena careta com a memória. Eu fiquei ligeiramente distraído, a perguntar-me como é que Bella poderia ter sido provocada por alguém a falar sobre mim. – E um rapaz mais velho da tribo referiu que a tua família não ia à reserva, só que parecia que as suas palavras tinham um segundo sentido. Assim, fiz por ficar a sós com o Jacob e levei-o a fazer-me essas revelações.
A cabeça dela baixava-se ainda mais à medida que admitia aquilo, e a sua expressão parecia… culpada.
Parei de olhar para ela e ri-me alto. Ela sentia-se culpada? O que é que ela podia possivelmente ter feito para merecer qualquer tipo de censura?
- Como é que o levaste a fazê-lo? - Perguntei.
- Tentei namoriscá-lo… foi mais eficaz do que eu pensava – Explicou, e sua voz tornou-se incrédula com a memória daquele sucesso.
Eu conseguia imaginar - considerando a atracção que ela parecia exercer sobre todos os machos, e sendo totalmente inconsciente disso - o quão irresistível ela seria quando tentava ser atraente. Subitamente fiquei cheio de pena pelo rapaz inocente a que ela libertou tanta força potente.
- Gostava de ter assistido - Disse, e depois ri-me de novo com humor negro. Gostava de ter podido ouvir a reacção do rapaz, testemunhado a devastação para mim mesmo. – E acusaste-me a mim de deslumbrar as pessoas. Pobre Jacob Black.
Eu não estava tão zangado com a fonte da minha exposição como achava que ia ficar. Ele não sabia. E como é que eu podia esperar que alguém negasse a esta rapariga o que ela queria? Não, eu apenas senti solidariedade pelo dano que ela poderia ter causado à mente dele.
Senti o corar dela a aquecer o ar entre nós. Olhei para ela, mas ela estava a olhar para fora da janela. Não falou novamente.
- O que fizeste então? - Perguntei. Hora Estava na hora de voltar para a história de terror.
- Fiz algumas pesquisas na Internet.
Sempre prática. – E isso convenceu-te?
- Não - Disse. – Nada se encaixava. A maior parte da informação era bastante disparatada. Então…
Ela parou de falar outra vez, e eu ouvi seus dentes a cerrarem-se.
- O quê? - Exigi. O que é que ela tinha encontrado?
Houve uma breve pausa, e em seguida, ela sussurrou – Cheguei à conclusão de que não tinha importância.
O choque congelou os meus pensamentos durante meio segundo, e depois tudo se encaixou. Por que é que ela tinha mandado as amigas embora em vez de fugir com elas. Por que é que ela tinha entrado no meu carro comigo novamente, em vez de sair a correr, a gritar pela polícia…
As reacções dela estavam sempre erradas, sempre completamente erradas… Ela puxava o perigo para si própria. Ela convidava-o.
- Não tinha importância? - Disse entre dentes, a raiva a preencher-me. Como é que era suposto proteger alguém tão… tão… tão determinado a ser desprotegido?
- Não, não me interessa o que tu és – Disse ela com uma voz tão calma que era inexplicável.
Ela era impossível.
- Não te importas que eu seja um monstro? Que eu não seja humano?
- Não.
Comecei a perguntar-me se ela era de todo estável.
Supus que lhe poderia arranjar os melhores cuidados disponíveis… Carlisle teria os contactos para lhe encontrar os médicos com mais capacidades, os terapeutas com mais talento. Talvez alguma coisa pudesse ser feita para corrigir o que quer que estivesse de errado com ela, o que quer que fosse que a punha contente por estar sentada ao lado de um vampiro com o coração a bater calma e estavelmente. Eu vigiaria as instalações, naturalmente, e visitá-la-ia sempre que me fosse permitido…
- Estás zangado - Suspirou – Não devia ter-te dito nada.
Como se esconder estas tendências perturbantes fosse ajudar algum de nós os dois.
- Não. Prefiro saber o que pensas, mesmo que o que penses seja de loucos.
- Então estou enganada outra vez? - Perguntou ela, agora com um tom de desafio.
- Não era a isso que eu me referia - Os meus dentes rangeram novamente - “Não tem importância!” - Repeti num tom sarcástico.
Ela ofegou – Tenho razão?
- Isso tem alguma importância?
Respirou fundo. Esperei furiosamente pela sua resposta.
- Nem por isso - Disse, com a voz dela composta de novo. – Mas estou com curiosidade.
Nem por isso. Na realidade não importava muito. Ela não queria saber. Ela sabia que eu era não humano, um monstro, e isso não tinha importância para ela.
Além das minhas preocupações em relação à sanidade dela, comecei a sentir um bocado de esperança. Tentei acabar com isso.
- Sentes curiosidade em relação a quê? - Perguntei. Não havia segredos que restassem, apenas mínimos detalhes.
- Que idade tens? – Perguntou-me.
A minha resposta foi automática. – Dezassete.
- E há quanto tempo tens dezassete anos?
Tentei não sorrir àquele tom superior. - Há algum - Admiti.
- Muito bem – Disse satisfeita. Sorriu para mim. Quando olhei de volta para ela, outra vez ansioso em relação à sua saúde mental, ela fez um sorriso mais largo. Eu franzi a testa.
- Não te rias – Avisou – Mas como é que podes andar na rua durante o dia?
Eu ri-me apesar do seu pedido. Parecia que a sua investigação não tinha nada de incomum – Mito – disse-lhe.
- Ser queimado pelo sol?
- Mito.
- Dormir em caixões?
- Mito.
Dormir já não era parte da minha vida há muito tempo, até estas últimas noites, enquanto eu via Bella a sonhar…
- Não consigo dormir – Murmurei, respondendo à sua pergunta mais completamente.
- De todo?
- Nunca – Disse por baixo da respiração.
Olhei para os olhos dela, bastante abertos por baixo da espessa camada de pestanas, e ansiei por dormir. Não para esquecimento, como antes, não para fugir do tédio, mas porque eu queria sonhar. Talvez, se eu pudesse ficar inconsciente, se eu pudesse sonhar, poderia viver por algumas horas num mundo onde eu e ela pudéssemos ficar juntos. Ela sonhava comigo. Eu queria sonhar com ela.
Olhou de volta para mim, a sua expressão cheia de admiração. Tive que desviar o olhar.
Eu não podia sonhar com ela. Ela não devia sonhar comigo.
- Ainda não me colocaste a questão mais importante – Disse, o meu peito silencioso mais frio e mais rígido que nunca. Ela tinha de ser forçada a compreender. Nalguma altura, ela teria que perceber o que estava a fazer agora. Ela tinha que ser forçada a ver que tudo isto tem importância, mais do que qualquer outra consideração. Considerações como o facto de que eu a amava.
- Qual? – Perguntou surpreendida e não preparada.
Isso só fez com que a minha voz ficasse mais séria. – Não estás interessada no meu regime alimentar?
- Pois, isso. – Ela falou num tom calmo que eu não consegui interpretar.
- Pois, isso. Não queres saber se eu bebo sangue?
Ela encolheu-se com a minha pergunta. Finalmente. Ela estava a perceber.
- Bem, o Jacob mencionou algo a esse respeito - Disse.
- O que é que o Jacob mencionou?
- Mencionou que vocês não… caçavam pessoas. Mencionou que a tua família não devia ser perigosa porque só caçavam animais.
- Disse que nós não éramos perigosos? – Repeti cinicamente.
- Não propriamente – Esclareceu – Disse que não devias ser perigosos, mas que Quileutes continuavam a não querer que vocês pisassem nas suas terras. Não vá o Diabo tecê-las.
Eu olhei para a estrada. Os meus pensamentos num rosnado sem esperança, a minha garganta a doer com a sede ardente familiar.
- Então, ele tinha razão? - Perguntou, tão calmamente como se estivesse a confirmar um relatório meteorológico. – A respeito de vocês não caçarem pessoas?
- Os Quileutes têm uma memória de longo alcance.
Acenou a cabeça para ela mesma, a pensar profundamente.
- Mas não deixes que isso te torne complacente. - Disse rapidamente – Eles agem acertadamente ao manterem a distancia em relação a nós. Continuamos a ser perigosos.
- Não compreendo.
Não, não compreendia. Como fazê-la entender?
- Nós tentamos – Contei-lhe – Costumamos ser muito bons naquilo que fazemos. Por vezes, cometemos erros. Eu, por exemplo, ao permitir-me ficar a sós contigo.
O cheiro dela ainda era uma força dentro do carro. Estava a habituar-me a ele, quase que o conseguia ignorar, mas não havia como negar que o meu corpo ainda a desejava pela razão errada. A minha boca estava a nadar em veneno.
- Isto é um erro? - Perguntou, e havia tristeza na sua voz. O som daquilo desarmou-me. Ela queria estar comigo, apesar de tudo, ela queria estar comigo. A esperança cresceu outra vez, e eu mandei-a de volta para trás.
- Um erro muito perigoso - Disse com sinceridade.
Ela não respondeu por um momento. Ouvi a sua respiração a mudar, a alterar-se de formas estranhas que não soavam a medo.
- Conta-me mais coisas ela disse de repente, sua voz estava distorcida pela angústia.
Examinei-a cuidadosamente. Ela estava a sofrer. Como é que eu permiti isto?
- O que queres saber mais? – Perguntei, a pensar numa maneira de a impedir de se magoar. Ela não se devia magoar. Eu não podia deixá-la ser magoada.
- Diz-me porque é que caças animais em vez de pessoas - Disse, ainda angustiada.
Isso não era evidente? Ou talvez não tivesse importância para ela
- Eu não quero ser um monstro - Murmurei.
- Mas os animais não são suficientes?
Procurei por outra comparação, para que ela pudesse entender. – Não posso ter a certeza, como é evidente, mas compará-lo-ia a uma alimentação à base de tofu e leite de soja, consideramo-nos vegetarianos. É uma pequena piada entre nós. Não sacia completamente a fome, ou, melhor… A sede. Mas mantêm-nos suficientemente fortes para conseguirmos resistir. A maior parte do tempo - A minha voz ficou mais baixa. Estava envergonhado pelo perigo em que a deixei colocar-se. Perigo que eu continuava a permitir… - Umas vezes é mais difícil do que outras.
- Está a ser muito difícil para ti agora?
Suspirei. É claro que ela ia fazer a pergunta que eu não queria responder. – Está - Admiti.
Desta vez adivinhei correctamente a reacção física dela. A respiração dela ficou estável, o seu coração manteve as batidas. Eu estava à espera disso, mas não compreendia. Como é que ela podia não ter medo?
- Mas agora não tens fome – Declarou, perfeitamente segura.
- Porque pensas isso?
- Os teus olhos – Disse ela de improviso - Eu disse-te que tinha uma teoria. Reparei que as pessoas, principalmente os homens, ficam mais rabugentas quando têm fome.
Eu ri-me da descrição dela: rabugento. Rabugento era favor. Mas ela estava completamente certa, como de costume. – És observadora não és? – Ri-me novamente.
Ela sorriu um bocado, a ruga entre as sobrancelhas acentuou-se, como se estivesse a concentrar em alguma coisa.
- Foste caçar no passado fim-de-semana com o Emmett? - Perguntou depois de o meu riso ter desaparecido. A maneira casual como ela falava era tão frustrante como fascinante. Ela conseguia mesmo perceber tanto só de uma vez? Eu estava mais em choque do que ela alguma vez tinha estado.
- Fui – Disse-lhe, e de seguida, quando estava prestes a deixar o assunto por ali, senti a mesma urgência que tinha sentido no restaurante. Eu queria que ela me conhecesse - Não queria partir - Continuei lentamente – Mas era necessário. É uma pouco mais fácil estar perto de ti quando não estou sedento.
- Porque é que não querias partir?
Respirei fundo, e depois virei-me para encontrar o olhar dela. Este tipo de honestidade era difícil de uma forma muito diferente – Fico… ansioso - Supus que aquela palavra fosse suficiente, embora não fosse suficientemente forte – Quando estou longe de ti. Não estava a brincar quando te pedi que tentasses não cair no mar nem ser atropelada na passada quinta-feira. Passei todo o fim-de-semana preocupado contigo. E, depois do que aconteceu esta noite, estou surpreendido por teres conseguido espaçar ilesa a um fim-de-semana inteiro – E depois lembrei-me dos arranhões nas palmas das suas mãos - Bem, não totalmente ilesa.
- O quê?
- As tuas mãos – Lembrei-a.
Suspirou e enrugou a testa – Caí.
Tinha acertado - Foi o que eu pensei - Disse, incapaz de conter o meu sorriso - Suponho que, tratando-se de ti, poderia ter sido muito pior… E essa possibilidade atormentou-me durante todo o tempo que passei fora. Foram três dias muito longos. Irritei o Emmett a sério.
Honestamente, aquilo não fazia parte do passado. Provavelmente eu ainda estava a irritar o Emmett, e o resto da minha família também. Excepto a Alice…
- Três dias? – A voz repentinamente afiada – Não regressaram hoje?
Não entendi a frieza na voz dela – Não, regressámos no Domingo.
- Então porque é que nenhum de vós estava na escola? – Exigiu saber. A irritação dela confundiu-me. Ela não parecia ter percebido que esta questão era uma que se relacionava com a mitologia novamente.
- Bem, perguntaste-me se o Sol me magoava e não magoa – Disse – Mas não posso expor-me à luz solar, pelo menos em lugares onde alguém me possa ver.
Aquilo desviou-a da sua irritação misteriosa – Porquê? – Perguntou, inclinando a cabeça para o lado.
Duvidei que arranjasse uma analogia apropriada para explicar esta. Portanto disse-lhe apenas – Um dias destes mostro-te - E então perguntei-me se esta era uma promessa que acabaria por quebrar. Ia vê-la de novo depois desta noite? Já a amava o suficiente para suportar deixá-la?
- Podias ter-me telefonado – Disse ela.
Que estranha conclusão – Mas eu sabia que estavas a salvo.
- Mas eu não sabia onde tu estavas. Eu… - Ela interrompeu de uma maneira repentina, e olhou para as suas mãos.
- O quê?
- Não gostei - Disse com timidez, a pele a corar ao longo das suas bochechas – De não te ver. Também me faz ficar ansiosa.
Estás contente agora? Perguntei a mim mesmo. Bem, aqui estava a recompensa por ter esperançado.
Eu estava perplexo, feliz, horrorizado, principalmente horrorizado. Era por isto que ela não se importava por eu ser um monstro. Era exactamente pela mesma razão que eu já não me importava com as regras. A razão por que o certo e o errado já não eram influências incontornáveis. A razão por que as todas as minhas prioridades tinham descido um nível para dar espaço a esta rapariga no topo.
Bella também se importava comigo.
Eu sabia que podia ser nada em comparação ao quanto eu a amava. Mas era o suficiente para que ela arriscasse a sua vida ao sentar-se aqui comigo. Para fazê-lo tão boa vontade
O suficiente para a magoar se eu fizesse a coisa certa e a deixasse.
Havia alguma coisa que eu pudesse fazer agora que não a magoasse? Nada? Eu devia ter ficado afastado. Eu nunca devia ter voltado para Forks. Só iria lhe provocar dor, mais nada.
Aquilo impedir-me-ia de ficar, agora? De piorar as coisas?
A forma como me sentia neste momento, a sentir o calor dela contra minha pele…
Não. Nada me ia parar.
-Ah - Gemi comigo mesmo – Isto está errado.
- O que é que eu disse? – Perguntou, rapidamente a culpar-se.
- Não vês Bella? Fazer-me infeliz a mim mesmo é uma coisa, mas outra coisa completamente diferente é o facto de tu estares tão envolvida. Não quero ouvir-te dizer que te sentes assim - Era a verdade, era uma mentira. A parte mais egoísta de mim estava a voar com o conhecimento de que ela me queria como eu a queria. – Está errado. Não é seguro. Eu sou perigoso Bella. Por favor, compreende isso.
- Não – Os lábios dela ficaram apontados com petulância.
- Estou a falar a sério - Eu estava a lutar comigo próprio com tanta força, meio desesperado para ela aceitar, meio desesperado para manter os avisos e fugir, que as palavras passaram pelos meus dentes como um rugido.
- Eu também – Insistiu – Já te disse que não me interessa o que tu és. Já é demasiado tarde.
Demasiado tarde? O mundo ficou desoladamente preto e branco por um interminável segundo enquanto eu vi as sombras a espalharem-se sobre o relvado soalheiro em direcção à forma adormecida de Bella na minha memória. Inevitável, imparável. Elas roubaram a cor da sua pele, e mandaram-na para a escuridão.
Demasiado tarde? A visão de Alice girava na minha cabeça, os olhos vermelhos sangrentos de Bella a olhar para mim passivamente. Sem expressão, mas não havia nenhuma maneira de ela não me odiar por aquele futuro. Odiar por lhe ter roubado tudo. Roubado a sua vida e alma.
Não podia ser demasiado tarde.
- Nunca digas isso.
Ela olhou para fora da janela, e mordeu o lábio novamente. As suas mãos estavam apertadas em punhos no colo. A respiração dela acelerou, e parou.
- Em que estás a pensar? - Eu tinha que saber.
Ela abanou a cabeça, sem olhar para mim. Eu vi algo a brilhar, como um cristal, na sua bochecha.
Agonia – Estás a chorar? - Eu tinha-a feito chorar. Magoei-a a esse ponto.
Esfregou as lágrimas com a parte de trás da mão.
- Não - Mentiu, a voz falhou.
Algum instinto há muito enterrado fez-me estender a mão para a alcançar, e naquele pequeno segundo eu senti-me mais humano que nunca. E depois lembrei-me que… não era. E baixei a minha mão.
- Desculpa - Disse, o meu queixo preso. Como é que eu lhe podia dizer o quanto estava arrependido? Arrependido por todos os erros estúpidos que eu tinha cometido. Arrependido pelo meu egoísmo sem fim. Arrependido por ela ter inspirado em mim o meu primeiro e trágico amor. Arrependido também por coisas fora do meu controlo, por eu ter sido o monstro escolhido por destino para acabar com a vida dela em primeiro lugar.
Respirei fundo, ignorando a minha reacção miserável ao sabor no carro, e tentei recompor-me.
Queria mudar de assunto, pensar noutra coisa. Para a minha sorte, a minha curiosidade sobre esta rapariga era insaciável. Eu tinha sempre uma pergunta.
- Diz-me uma coisa – Disse-lhe.
- Sim? - Perguntou roucamente, as lágrimas ainda estavam na sua voz.
- Em que é que estavas a pensar esta noite, mesmo antes de eu contornar a esquina? Não consegui perceber a expressão estampada no teu rosto e não parecias assim tão assustada. Mas parecias sim estar a concentrar-te profundamente em algo – Lembrei-me da cara dela, forçando-me a esquecer de que olhos eu estava a olhar, e vi um olhar de determinação.
- Estava a tentar lembrar-me de como incapacitar um agressor - Disse, a voz um bocado mais composta. – Tu sabes, auto-defesa. Ia esmurrar-lhe o nariz e enfiar-lho no cérebro.
A sua compostura não durou até ao fim da explicação. O tom dela mudou até que fervesse em ódio. Isto não foi nenhuma hipérbole, e a sua fúria de gatinho agora não era engraçada.
Eu conseguia ver a frágil figura dela, simplesmente seda por cima de vidro, ofuscada por aqueles monstros humanos que a teriam magoado. A fúria ferveu de novo na minha cabeça.
- Ias lutar com eles? - Eu queria gritar. Os instintos dela eram mortais para si mesmo. – Não pensaste em fugir?
- Caio muitas vezes quando corro - Disse envergonhada.
- E em gritar?
- Estava a chegar a essa parte.
Abanei a minha cabeça a não acreditar naquilo. Como é que ela conseguiu sobreviver antes de vir para Forks?
- Tinhas razão – Disse-lhe, com irritação na minha voz – Estou decididamente a lutar contra o destino ao tentar manter-te viva.
Ela suspirou, e olhou para fora da janela. Depois voltou a olhar para mim.
- Vemo-nos amanhã? - Perguntou abruptamente.
Já que estava a caminho do inferno, já agora aproveitava a viagem.
- Vemos, também tenho um trabalho a entregar – Sorri-lhe, e senti bem a fazer isto – Guardo-te um lugar ao almoço.
O coração dela palpitou, o meu coração morto subitamente sentiu-se mais quente.
Parei o carro à frente da casa do seu pai. Ela não fez nenhum movimento para me deixar.
- Prometes estar lá amanhã? - Insistiu.
- Prometo.
Como é que fazer a coisa errada me podia dar tanta felicidade?
Ela acenou para si mesma, satisfeita, e começou a tirar o meu casaco.
- Podes ficar com ele – Assegurei rapidamente. Preferia deixá-la com alguma coisa minha. Um símbolo, como a tampa da garrafa que estava em meu bolso agora… - Não tens casaco para vestir amanhã.
Ela devolveu-mo, a sorrir tristemente – Não quero ter de dar explicações ao Charlie.
Eu imaginava que não. Sorri-lhe – Ah, pois.
Ela pôs a mão na maçaneta do carro e depois parou. Relutante em ir embora, assim como eu estava relutante em deixá-la ir.
Tê-la sem protecção, nem que seja por alguns momentos…
Peter e Charlotte agora já estavam no seu caminho, há muito que passaram por Seattle, sem dúvida. Mas há sempre outros. Este mundo não era um lugar seguro para nenhum humano, e para ela parecia ainda mais perigoso do que para o resto.
- Bella? - Chamei, surpreendido com o prazer que dava a simplesmente dizer o nome dela.
- Sim?
- Prometes-me uma coisa?
- Sim - Concordou facilmente, e depois os olhos dela semicerraram-se como se tivesse pensado num motivo para se queixar.
- Não entres no bosque sozinha – Avisei-a, a perguntar-me se este pedido lhe fosse criar discórdia nos olhos.
Ela piscou os olhos, surpreendida – Porquê?
Olhei para escuridão que não era de confiança. A falta de luz não era um problema para os meus olhos, mas também não seria um problema para qualquer outro caçador. Apenas cegava os humanos.
- Nem sempre sou a criatura mais perigosa que por ali deambula – Disse-lhe – Fiquemos por aqui.
Ela arrepiou-se, recuperou rapidamente e até estava a sorrir quando me disse – Como queiras.
A respiração dela tocou no meu rosto, tão doce e perfumada.
Eu podia ficar nisto a noite inteira, mas ela precisava de dormir. Os dois desejos pareciam igualmente fortes enquanto se continuavam a batalhar dentro de mim: querê-la e querer que ela ficasse a salvo.
Suspirei àquelas duas impossibilidades - Até amanhã - Disse, sabendo que a ia ver muito mais cedo que isso. Ela não me ia ver até amanhã, no entanto.
- Até amanhã, então - Concordou enquanto abria a porta.
Agonia novamente, ao vê-la partir.
Inclinei-me atrás dela, a querer mantê-la ali. - Bella?
Ela virou-se e depois congelou, surpreendida por ver as nossas caras tão perto.
Eu, também, estava surpreendido com a proximidade. O calor saía da pele dela em ondas, a acariciar o meu rosto. Eu conseguia tudo menos sentir a seda da sua pele…
As batidas do seu coração hesitaram, e os lábios abriram-se.
- Dorme bem – Sussurrei, e afastei-me antes que a urgência de meu corpo - ou a sede familiar ou este novo e estranho desejo que eu senti de repente - me fizesse fazer algo que a pudesse magoar.
Ela permaneceu ali sentada sem se movimentar por um momento, os olhos arregalados e atordoados. Deslumbrada, supus.
Tal como eu estava.
Ela recuperou, apesar da sua cara ainda estar um pouco confusa, e saiu quase que caiu do carro, a tropeçar nos pés e a ter de se agarrar ao carro para se equilibrar.
Abafei um riso, na esperança que tivesse sido baixo o suficiente para que ela não tivesse ouvido.
Vi-a a tropeçar o caminho toda até à parte iluminada que vinha da porta da frente. Em segurança por agora. E eu estaria de volta em breve para me certificar.
Conseguia sentir os olhos a seguirem-me enquanto conduzia pela rua escura. Uma sensação tão diferente do que eu estava habituado. Normalmente, eu podia simplesmente ver-me através dos olhos de outra pessoa. Isto era estranhamente excitante, esta sensação incompreensível de estar a ser observado. Eu sabia que isso era apenas por serem os seus olhos.
Um milhão de pensamentos perseguiam-se uns aos outros na minha cabeça enquanto eu conduzia sem rumo pela noite.
Durante um longo tempo circulei pelas ruas, sem ir para lugar algum, a pensar em Bella e na libertação de a verdade estar descoberta. Já não tinha que ter medo de ela descobrir o que eu era. Ela sabia. E não tinha importância para ela. Mesmo que fosse obviamente uma coisa má para ela, era impressionantemente libertador para mim.
Mais que isso, eu pensava na Bella e no amor compensatório. Ela não me podia amar da mesma forma que eu a amava, um amor tão forte, tão consumidor e arrasador ia provavelmente partir o corpo frágil dela. Mas o que ela sentia era forte o suficiente. O suficiente para subjugar o medo instintivo. O suficiente para querer estar comigo. E estar com ela era a maior felicidade que eu já tinha conhecido.
Por um bocado, enquanto estava sozinho e sem magoar ninguém para variar, permiti-me a sentir aquela felicidade sem que terminasse em tragédia. Apenas a ser feliz por ela se importar comigo. Apenas a regozijar-me por ter ganho o afecto dela. Apenas a imaginar dia após dias a sentar-me perto dela, a ouvir a vós dela e a receber os seus sorrisos.
Repeti aquele sorriso na minha cabeça, a observar os lábios cheios dela a erguerem-se nos cantos, a ponta de uma covinha aparecia na ponta do seu queixo, a maneira como os seus olhos tinham aqueciam e derretido… Os dedos dela tinham um toque tão quente e suave na minha mão esta noite. Imaginei como seria tocar na delicada pele que se esticava por cima das bochechas dela. Sedoso, quente… tão frágil. Seda por cima de vidro… espantosamente quebrável.
Eu não vi para onde é que os meus pensamentos estavam a ir até ser tarde de mais. Enquanto me debruçava sobre aquela vulnerabilidade devastadora, novas imagens do seu rosto fizeram-se de intrusas nas minhas fantasias.
Perdida nas sombras, pálida com medo. Ainda assim o seu queixo firme e determinado, os seus olhos ferozes, cheios de concentração, o seu corpo magro decidido a enfrentar as formas pesadas que se reuniram à volta dela, pesadelos na escuridão…
- Ah! - Rosnei enquanto a raiva que tinha esquecido na alegria de a amar se incendiou outra vez num inferno de raiva.
Eu estava sozinho. A Bella estava, eu acreditava, segura em casa. Por um momento eu fiquei ferozmente feliz por Charlie Swan - o braço forte da lei local, treinado e armado – ser o seu pai. Isso devia significar alguma coisa, como providenciar-lhe alguma protecção.
Ela estava segura. Não levaria muito tempo a vingar-me daquele ultraje…
Não. Ela merecia melhor. Eu não podia permitir que ela gostasse de um assassino.
Mas… e quanto às outras?
Bella estava segura, sim. Angela e Jessica também, com certeza a salvo nas suas camas.
Ainda assim o monstro estava à solta nas ruas de Port Angeles. Um monstro humano, isso fazia com que ele fosse um problema dos humanos? Cometer o crime pelo qual eu ansiava tanto era errado. Eu sabia disso. Mas deixá-lo livre para atacar outra vez também não era a coisa certa.
A empregada loira do restaurante. A empregada de mesa a quem eu não tinha olhado realmente. Ambas me tinham irritado de uma maneira banal, mas isso não significava que mereciam ficar em perigo.
Qualquer uma das duas podia ser a Bella de alguém.
Essa realização decidiu-me.
Virei o carro para norte, acelerando agora que tinha um objectivo. Sempre que eu tinha um problema que me ultrapassava, alguma coisa tangível como isto, sabia onde podia procurar ajuda.
A Alice estava sentada na entrada, à minha espera. Parei em frente à casa em vez de ir para a garagem.
- O Carlisle está no seu escritório – Disse-me antes que eu pudesse perguntar.
- Obrigado – Disse, despenteando-a enquanto passava.
Obrigada por teres respondido à minha chamada - Pensou sarcasticamente.
- Ah - Parei à porta, a agarrar o meu telemóvel e a abri-lo. – Desculpa. Nem abri para ver quem tinha sido. Estava… ocupado.
- Sim, eu sei. Desculpa também. Quando vi o que ia acontecer, tu já estavas a caminho.
- Foi por pouco - Murmurei.
Desculpa. Repetiu, envergonhada.
Era fácil ser generoso, ao saber que Bella estava bem - Não peças desculpa. Eu sei que tu não podes apanhar tudo. Ninguém espera que sejas omnisciente.
- Obrigada.
- Eu quase te convidei para jantar hoje, viste isso antes de eu mudar de ideias?
Sorriu não muito contente - Não, também perdi isso. Gostava de ter sabido. Teria ido.
- Em que é que te estavas a concentrar para perder tanta coisa?
O Jasper está a pensar no nosso aniversário. – Riu-se. - Ele está a tentar não fazer uma decisão sobre o meu presente, mas acho que tenho uma boa ideia…
- Devias ter vergonha.
- Sim.
Juntou os lábios, e olhou para mim, um sinal de acusação na sua expressão. Prestei mais atenção depois. Vais contar-lhe que ela sabe?
Suspirei - Sim. Depois.
Não vou dizer nada. Faz-me um favor e conta à Rosalie quando eu não estiver por perto, está bem?
Encolhi-me. - Claro.
A Bella levou tudo muito bem.
- Demasiado bem.
A Alice sorriu-me. Não subestimes a Bella.
Tentei bloquear a imagem que não queria ver, Bella e Alice, melhores amigas.
Impaciente agora, suspirei pesadamente. Queria despachar a próxima parte da noite, queria resolver tudo. Mas estava um bocado preocupado para deixar Forks…
- Alice… - Comecei. Ela viu o que eu estava a planear perguntar.
Ela vai ficar bem esta noite. Estou prestar mais atenção agora. Ela a modos que precisa de vigilância a 24 horas não é?
- Pelo menos.
- De qualquer das maneiras vais estar com ela em breve.
Respirei fundo. As palavras eram lindas para mim.
- Vai lá, acaba com isto para que possas estar onde queres estar – Disse-me.
Eu concordei, e apressei-me para o quarto de Carlisle.
Ele estava à minha espera, os seus olhos na porta em vez de no livro grosso que estava na sua mesa.
- Ouvi a Alice a dizer onde me encontrares - Disse, e sorriu.
Era um alívio estar com ele, ver a empatia e inteligência profunda nos seus olhos. Carlisle saberia o que fazer.
- Preciso de ajuda.
- Qualquer coisa, Edward. - Prometeu.
- A Alice contou-lhe o que aconteceu com a Bella hoje à noite?
Quase aconteceu. - Corrigiu.
- Sim, quase. Tenho um dilema, Carlisle. É que quero… muito… matá-lo - As palavras começaram a surgir rápidas e cheias de ódio - Muito mesmo. Mas sei que isso seria errado, porque seria vingança e não justiça. Só raiva, sem imparcialidade. Mesmo assim, não seria certo deixar um violador e assassino em série a vaguear por Port Angeles! Eu não conheço os humanos de lá, mas não posso deixar que outra pessoa fique com o lugar de Bella como vítima. Aquelas outras mulheres… Alguém pode sentir por elas o que eu sinto pela Bella. Alguém pode sofrer como eu teria sofrido se ela tivesse sido magoada. Não é certo…
O seu sorriso largo e inesperado parou meu fluxo de palavras.
Ela é muito boa para ti, não é? Tanta compaixão, tanto controlo. Estou impressionado.
- Não estou à procura de elogios Carlisle.
- Claro que não. Mas não posso evitar os meus pensamentos, não é? - Sorriu de novo – Eu trato disso. Pode descansar em paz. Ninguém será magoado no lugar da Bella.
Vi o plano na cabeça dele. Não era exactamente o que eu queria, não satisfez o meu desejo de brutalidade, mas conseguia ver que era a coisa acertada.
- Eu mostro onde o encontrar – Disse-lhe.
- Vamos.
Ele agarrou na mala preta no caminho. Eu teria preferido uma forma mais agressiva de o sedar, como um crânio partido, mas ia deixar Carlisle fazer isto à maneira dele.
Levámos o meu carro. Alice ainda estava nas escadas da entrada. Ela sorriu e acenou enquanto nos afastávamos. Eu vi que ela tinha procurado o meu futuro, não íamos ter dificuldades.
A viagem foi curta pela estrada escura e vazia. Desliguei os faróis para evitar chamar à atenção. Fez-me sorrir pensar em como Bella teria reagido a esta velocidade.
Carlisle também estava a pensar em Bella.
Eu não previ que ela fosse tão boa para ele. É inesperado. Talvez fosse suposto acontecer isto. Talvez seja um propósito mais alto. Só que…
Ele imaginou Bella com a pele fria como neve e olhos vermelhos como sangue, e depois desviou-se daquela imagem.
Sim. Só que. De facto. Por que como poderia haver algo de bom em destruir uma coisa tão pura e adorável?
Fitei com fúria a noite, toda a alegria desta noite foi destruída pelos seus pensamentos.
O Edward merece ser feliz. É um direito dele. A ferocidade dos pensamentos de Carlisle surpreendeu-me. Tem que haver uma maneira.
Eu gostava de acreditar naquilo, em ambos. Mas não havia um propósito mais alto para o que estava a acontecer com Bella. Apenas um destino amargo e feio que não podia suportar dar-lhe a vida que ela merecia.
Eu não fiquei em Port Angeles. Levei Carlisle ao local onde a criatura chamada Lonnie se estava a afogar na sua decepção com seus amigos, dois dos quais já tinham desmaiado. Carlisle conseguiu ver o quão difícil era para mim estar tão perto, e ouvir os pensamentos do monstro e ver as suas memórias, as memórias de Bella misturadas com as de raparigas menos sortudas que já não mais podiam ser salvas.
A minha respiração acelerou e segurei o volante com força.
Vai, Edward. Disse-me gentilmente. Eu ponho o resto a salvo. Volta para a Bella.
Era exactamente a coisa certa a dizer. O nome dela era a única distracção que significava alguma coisa para mim agora.
Deixei-o no carro e voltei a correr para Forks, numa linha recta através da floresta adormecida. Levou menos tempo do que a primeira viagem de carro. Apenas poucos minutos depois escalei a parede da casa dela e deslizei a janela para fora do meu caminho.
Suspirei silenciosamente em alívio. Tudo estava como era suposto. A Bella estava a salvo na sua cama, a sonhar, os seus cabelos húmidos emaranhados como algas na almofada.
Mas, ao contrário das outras noites, ela estava enrolada numa pequena bola com os cobertores esticados à volta dos ombros. Frio, imaginei. Antes que me pudesse acomodar no meu lugar habitual, ela tremeu durante o sono e os lábios tremeram.
Hesitei por um breve momento e depois saí para o corredor, a explorar uma nova parte da casa pela primeira vez.
O ressonar de Charlie era alto e equivalente. Eu quase conseguia apanhar a margem do seu sonho. Algo com a corrente da água e uma espera paciente… pesca, talvez?
Lá, no topo das escadas, havia um armário promissor. Abri-o esperançosamente e encontrei o que procurava. Escolhi o cobertor mais grosso de entre as finas peças de linho e levei-o para o quarto dela. Eu voltaria a guardá-lo antes que ela acordasse, assim ninguém daria conta.
Sustendo a minha respiração, cuidadosamente estendi o cobertor em cima dela, ela não reagiu ao peso adicional. Voltei então para a minha cadeira.
Enquanto eu esperava ansiosamente que ela aquecesse, eu pensei em Carlisle, a perguntar-me onde é que ele estaria agora. Eu sabia que o seu plano ia correr bem. A Alice tinha visto isso.
Pensar no meu pai fez-me suspirar. O Carlisle deu-me demasiado crédito. Eu gostava de ser a pessoa que ele imaginava que eu era. Essa pessoa, merecedora de felicidade, poderia esperar ser merecedor desta rapariga adormecida. Como as coisas podiam ser diferentes se eu fosse aquele Edward.
Enquanto eu ponderava isto, uma imagem estranha e indesejada preencheu a minha mente.
Por um momento, a vidente que eu tinha imaginado, aquela que previu a destruição de Bella, foi trocada pelo mais tolo e desajeitado dos anjos. Um anjo da guarda, qualquer coisa como a versão de Carlisle em mim. Com um sorriso despreocupado nos seus lábios, os seus olhos da cor do céu cheios de provocação, o anjo formou Bella de tal maneira que seria impossível que eu não reparasse nela. Um odor ridiculamente potente que exigia a minha atenção, uma mente silenciosa para inflamar a minha curiosidade, uma beleza calma para prender os meus olhos, uma alma altruísta para ganhar o meu respeito. Deixou de lado o sentido natural de auto-preservação, para que Bella suportasse estar comigo, e, finalmente, adicionou uma larga dose de má sorte.
Com uma gargalhada inconsequente, o anjo irresponsável empurrou a sua frágil criação directamente para o meu caminho, confiando descuidadamente na minha moralidade falhada para manter Bella viva.
Nesta visão, eu não era a condenação de Bella, ela era minha recompensa.
Abanei a minha cabeça com a fantasia do anjo inimaginável. Ela não era muito melhor do que a Hárpia*. Eu não conseguia pensar num poder superior que se comportasse de uma maneira tão perigosa e estúpida. Pelo menos, contra a vidente horrorosa eu podia lutar.
E eu não tinha nenhum anjo. Eles eram reservados para os bons, para pessoas como Bella. Então onde é que estava o anjo dela no meio disto tudo? Quem é que estava a tomar conta dela?
Ri-me silenciosamente, perplexo, enquanto percebia que, neste momento, era eu quem estava a desempenhar aquele papel.
Um anjo vampiro, havia uma boa distância entre as duas coisas.
Depois de cerca de meia hora, Bella relaxou daquela bola apertada. A sua respiração tornou-se mais profunda e começou a murmurar. Eu sorri, satisfeito. Era uma pequena coisa, mas pelo menos ela estava a dormir mais confortavelmente esta noite por que eu estava aqui.
- Edward - Suspirou, e sorriu também.
Desviei a tragédia por um momento, e permiti-me ser feliz novamente.



*Hárpia. Suponho que se refere à mitologia grega. http://pt.wikipedia.org/wiki/Harpias
Sinceramente, não faço A mínima ideia, esse parágrafo inteiro foi uma confusão autêntica.

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