sábado, 15 de agosto de 2009

Capítulo 1 - À primeira vista

A pedido de alguns leitores, aqui estão os capitulos anteriores, mas estes não foram traduzidos por mim, mas estão em portugues de Portugal.
Estes 12 capítulo foram traduzidos pela Mafalda Veiga, o seu blog é http://midnightsunemportugues.blogspot.com/.

{As palavras/frases em negrito são pensamentos}

1. À Primeira Vista


Esta era a hora do dia em que eu desejava conseguir dormir. Liceu.
Ou será que a palavra certa era purgatório? Se houvesse uma maneira de compensar os meus pecados, isto devia contar de alguma forma. O tédio não era uma coisa com a qual eu me tenha habituado. Cada dia parecia mais impossivelmente monótono do que o último.
Suponho que esta era a minha forma de dormir - se dormir era definido como um estado inerte entre períodos activos.
Olhei para as falhas no gesso do tecto do canto mais distante do refeitório, imaginando padrões dentro deles que não existiam. Era a única maneira de desligar as vozes que tagarelavam como a corrente de um rio dentro da minha cabeça.
Várias centenas de vozes que eu ignorava por puro aborrecimento.
Quando se tratava da mente humana, eu já tinha ouvido tudo e mais um pouco. Hoje, todos os pensamentos estavam a ser consumidos com o drama comum de uma nova adição ao pequeno corpo estudantil daqui. Não levou muito tempo para ouvir todos. Tinha visto o rosto a repetir-se de pensamento em pensamento sob todos os ângulos. Só uma rapariga humana normal. A excitação pela chegada dela era cansativamente previsível - como um objecto brilhante para uma criança. Metade do corpo estudantil masculino já se estava a imaginar apaixonado por ela, só porque ela era algo de novo para se olhar. Tentei desligá-los ainda mais.
Só existiam quatro vozes que eu bloqueava mais por cortesia do que por desgosto: a minha família, os meus dois irmãos e duas irmãs, que já estavam tão habituados à falta de privacidade quando estavam ao pé de mim que já nem pensavam nisso. Eu dava-lhes toda a privacidade que conseguia. Se pudesse evitar, não os ouvia.
Eu tentava, mas ainda assim… eu sabia.
A Rosalie estava a pensar, como sempre, nela mesma. Tinha visto o reflexo do seu perfil no copo de alguém, e estava a meditar sobre a sua própria perfeição. A mente de Rosalie era uma piscina superficial com poucas surpresas.
O Emmett estava furioso por causa de uma luta que tinha perdido contra Jasper na noite passada. Ia usar toda a sua limitada paciência para chegar até o fim do dia de aulas e planear uma vingança. Nunca me senti muito intrusivo a ouvir os pensamentos de Emmett, porque ele nunca pensava em alguma coisa que não dissesse em voz alta ou fizesse. Talvez só me sentisse culpado a ler as mentes dos outros porque sabia que havia coisas que eles não iriam querer que eu soubesse.
Se a mente de Rosalie era uma piscina superficial, então a de Emmett era uma lagoa sem sombras, clara como cristal.
E Jasper estava… a sofrer. Segurei um suspiro.
Edward.Alice chamou-me na sua cabeça, e teve a minha atenção imediatamente. Era exactamente como se ela me estivesse a chamar em voz alta. Eu estava feliz que o nome que me foi dado tinha saído um bocado de moda ultimamente. Seria enervante, sempre que alguém pensasse num Edward qualquer, a minha cabeça virar-se-ia automaticamente…
A minha cabeça não se virou desta vez. A Alice e eu éramos bons nestas conversas privadas. Era raro quando alguém nos apanhava. Eu mantive os meus olhos nas linhas do gesso do tecto.
Como é que ele se está a aguentar? - Perguntou-me.
Eu fiz uma careta só com um pequeno movimento da minha boca. Nada que pudesse alertar os outros. Eu podia estar facilmente a fazer uma careta de aborrecimento.
O tom mental de Alice estava alarmado agora, eu vi na mente dela que ela estava a observar o Jasper com a sua visão periférica. Há algum perigo? Ela procurou, no futuro imediato, vasculhando por visões de monotonia para a fonte da minha careta. Eu virei a minha cabeça lentamente para a esquerda, como se estivesse a olhar para os tijolos na parede, suspirei, e depois para a direita, de volta para as falhas no teto. Só a Alice sabia que eu estava a abanar a minha cabeça.
Ela relaxou. Avisa-me se piorar.
Mexi apenas os meus olhos, para cima em direcção do tecto, e para baixo outra vez.
Obrigada por estares a fazer isto.
Eu estava feliz por não ter de lhe responder em voz alta. O que é que ia dizer? ‘O prazer é meu’? Dificilmente era isso. Eu não gostava de ouvir as lutas do Jasper. Era mesmo necessário fazer experiências como estas? Será que o caminho mais seguro não seria admitir que ele nunca seria capaz de lidar com a sede da mesma maneira que nós conseguíamos, e não forçar os seus limites? Para quê brincar com o desastre?
Já passaram duas semanas desde a nossa última caçada. Isso não era imensamente difícil para o resto de nós. Ocasionalmente era um bocado desconfortável - se um humano se aproximasse demais, se o vento soprasse na direcção errada. Mas os humanos raramente se aproximavam demais. Os instintos deles diziam-lhes o que as suas mentes conscientes nunca iriam entender: nós éramos perigosos.
Jasper era muito perigoso neste momento.
Nesse momento, uma rapariga pequena parou na ponta da mesa mais próxima da nossa, parando para falar com uma amiga. Alisou o cabelo curto, cor de areia, passando os dedos por ele. Os aquecedores mandaram o cheiro para a nossa direcção. Eu já estava habituado à maneira como esse cheiro me fazia sentir - a dor seca na minha garganta, o grito vazio no meu estômago, a contracção automática dos meus músculos, o excesso do fluxo de veneno na minha boca…
Tudo isto era muito normal, geralmente fácil de ignorar. Só que era mais difícil agora, com esses sentimentos mais fortes, duplicados, enquanto acompanhava a reacção de Jasper. Era uma sede gémea, e não apenas a minha.
O Jasper estava a deixar que a sua imaginação divagasse. Estava a imaginar. A imaginar-se a levantar do seu lugar ao lado de Alice e sentar-se ao lado da rapariga. Estava a pensar em inclinar-se para baixo e para a frente, como se fosse falar ao seu ouvido, e os seus lábios a tocarem o arco da garganta dela. Estava a imaginar como seria a sensação de sentir o fluxo quente do pulso dela por baixo de sua pele fina na boca dele…
Dei um pontapé na cadeira dele.
Ele encontrou o meu olhar por um minuto e depois olhou para baixo. Eu conseguia ouvir a vergonha e a rebeldia a lutar na cabeça dele.
- Desculpa - Jasper murmurou.
Levantei os ombros.
- Não ias fazer nada - Alice murmurou-lhe, acalmando o seu desapontamento. - Eu vi isso.
Lutei contra a careta que teria denunciado a mentira dela. Nós tínhamos que permanecer juntos, a Alice e eu. Não era fácil ouvir vozes ou ter visões do futuro. Duas aberrações no meio daqueles que já eram aberrações. Protegíamos os segredos um do outro.
- Ajuda um bocado se pensares neles como seres humanos - a Alice sugeriu, a sua voz alta, musical, era demasiado rápida para os ouvidos humanos entenderem, se algum deles estivesse perto o suficiente para ouvir. - O nome dela é Whitney. Tem uma irmãzinha que adora. A mãe dela convidou a Esme para aquela festa de jardim, lembras-te?
- Eu sei quem ela é - Jasper disse curtamente. Virou-se para olhar por uma das pequenas janelas que eram colocadas bem em baixo das vigas à volta da grande sala. O tom dele acabou com a conversa.
Ele tinha que caçar hoje à noite. Era ridículo arriscar-se desta maneira, a tentar testar a sua força, a tentar construir a sua resistência. O Jasper devia simplesmente aceitar as suas limitações e lidar com elas. Os seus hábitos antigos não condiziam com os hábitos que nós escolhemos; ele não devia exigir tanto de si mesmo desta maneira.
Alice suspirou baixinho e levantou-se, levando o seu tabuleiro de comida - o seu adereço, isso é que era - com ela e deixando-o sozinho. Ela sabia quando ele já estava farto dos encorajamentos dela. Apesar de Rosalie e Emmett serem mais abertos em relação ao seu relacionamento, eram Alice e Jasper que conheciam cada traço de humor do outro como o seu próprio. Como se conseguissem ler mentes também - só que só um do outro.
Edward Cullen.
Reacção de reflexo. Virei-me com o som do meu nome a ser chamado, apesar de não estar a ser chamado, só pensado.
Os meus olhos prenderam-se por uma pequena fracção de segundo com um grande par de olhos humanos, cor de chocolate num rosto pálido, com formato de coração. Eu já conhecia o rosto, apesar de nunca o ter visto até este momento. Ele esteve em quase todas as cabeças humanas hoje. A nova estudante, Isabella Swan. Filha do chefe de polícia da cidade, trazida para viver aqui por uma nova situação de custódia. Bella. Ela corrigia toda a gente que usava o seu nome inteiro…
Desviei o olhar, aborrecido. Levei um segundo para perceber que não tinha sido ela quem pensou no meu nome.
É claro que ela já se está a apaixonar pelos Cullen, ouvi o primeiro pensamento continuar.
Agora eu reconhecia a “voz”. Jessica Stanley - já há algum tempo que não me incomodava com as suas tagarelices internas. Foi um alívio quando ela se curou da sua paixão deslocada. Era quase impossível escapar dos seus constantes, ridículos sonhos diurnos. Desejei, naquela altura, poder explicar exactamente o que teria acontecido se os meus lábios, e os dentes atrás deles, se chegassem de alguma maneira perto dela. Isso teria silenciado aquelas fantasias incómodas. Pensar na reacção dela quase me fez sorrir.
Ela nem sequer é bonita. Não sei por que é que o Eric está a olhar tanto para ela… ou o Mike. Suspirou mentalmente no último nome. A nova paixão dela, o genericamente popular Mike Newton, era completamente indiferente a ela. Aparentemente, não era tão indiferente sobre a rapariga nova. Como uma criança com um objecto brilhante outra vez.
Isso colocou uma pontada maligna nos pensamentos de Jessica, apesar de ser externamente cordial com a recém-chegada enquanto explicava os conhecimentos comuns sobre a minha família. A nova estudante devia ter perguntado sobre nós.
Hoje estão todos a olhar para mim também, a Jessica pensou presumidamente num aparte. É uma sorte que Bella vá ter duas aulas comigo… aposto que Mike vai perguntar o que ela…
Tentei bloquear os pensamentos antes que a mesquinharia e a insignificância me deixassem louco.
- A Jessica Stanley está a dar à nova rapariga Swan todos os podres do clã Cullen -murmurei para o Emmett como distracção. Ele gargalhou por debaixo do fôlego. Espero que esteja a fazer isso bem, pensou.
- Na verdade, é muito pouco criativo. Só uma pequena ponta de escândalo. Nenhum mexerico horroroso. Estou um bocado desapontado.
E a rapariga nova? Também está desapontada com os mexericos?
Tentei ouvir o que essa rapariga nova, Bella, estava a pensar das histórias de Jessica. O que é que ela via quando olhava para a estranha família de pele pálida que era universalmente evitada?
Era mais ou menos a minha obrigação saber a reacção dela. Eu era como um espião, por falta de uma palavra melhor, para a minha família. Para nos proteger. Se alguém começasse a suspeitar, eu podia dar-nos a oportunidade de ter um aviso prévio para nos retirarmos facilmente. Isso acontecia ocasionalmente - algum humano com uma mente activa via-nos como personagens de um livro ou um filme. Geralmente entendiam tudo mal, mas era melhor mudarmo-nos para algum sítio novo do que arriscarmos o escrutínio. Muito, muito raramente, alguém adivinhava correctamente.
Nós não lhes dávamos oportunidade de testar as suas hipóteses. Simplesmente desaparecíamos, para nos tornarmos nada mais do que uma memória assustadora…
Não ouvi nada, apesar de conseguir ouvir onde a tagarelice frívola de Jessica continuava ali perto. Era como se não houvesse ninguém sentado ao lado dela. Que estranho, será que a rapariga nova tinha ido embora? Não parecia provável, já que Jessica continuava a mexericar com ela. Olhei para cima para verificar, sentindo-me meio estranho. Verificar o que os meus “ouvidos” extras me podiam dizer não era uma coisa que eu tinha que fazer.
Outra vez, os meus olhos prenderam-se naqueles mesmos grandes olhos castanhos.
Ela estava sentada exactamente como antes, olhando para nós, uma coisa natural a fazer-se, acho, já que a Jessica ainda estava a espalhar as fofocas locais sobre os Cullen.
Pensar em nós também seria natural.
Mas eu não ouvia nem sequer um sussurro. Um quente e convidativo vermelho deu cor às suas bochechas quando ela olhou para baixo, desviando o olhar da embaraçosa situação de ser apanhada a encarar um estranho. Era bom que Jasper ainda estivesse a olhar para a janela. Eu não gostava de imaginar o que aquele simples agrupamento de sangue faria com o seu controle.
As emoções estavam tão claras como se tivessem sido escritas na testa dela: surpresa, enquanto ela, sem saber, absorvia as diferenças entre a espécie dela e a minha; curiosidade, enquanto ouvia as explicações de Jessica; e algo mais… fascínio? Não seria a primeira vez. Nós éramos lindos para eles, a nossa presa.
E depois, finalmente, vergonha, quando a apanhei a olhar para mim.
E, mesmo assim, apesar de os seus pensamentos serem tão claros através dos seus olhos estranhos - estranhos por causa da profundidade deles; os olhos castanhos normalmente pareciam vazios na sua escuridão - não conseguia ouvir nada além do silêncio vindo do lugar onde ela estava sentada. Absolutamente nada.
Senti um momento desconfortável.
Isto não era uma coisa pela qual eu já tinha passado antes. Havia algo de errado comigo? Sentia-me exactamente da mesma maneira que me sentia sempre. Preocupado, tentei ouvir melhor.
Todas as vozes que estive a bloquear, passaram a gritar na minha cabeça de repente.
pergunto-me de que música é que ela gosta… talvez eu possa mencionar aquele CD novo…, Mike Newton estava a pensar, a duas mesas de distância - fixado em Bella Swan.
Vejam-no só a olhar para ela! Será que já não é suficiente que tenha metade das miúdas da escola caídas por ele? Eric Yorkie estava a ter pensamentos de mágoa, também girando à volta da rapariga.
…tão nojento. Quase que dava para pensar que ela é famosa ou alguma coisa assim… Até o Edward CULLEN está a olhar! A Lauren Mallory estava com tantos ciúmes que a cara dela devia estar com uma cor verde como a de jade. E Jessica, a ostentar a sua nova melhor amiga. Que piada…, a rapariga continuou a soltar veneno com os pensamentos.
…Aposto que toda a gente já deve ter-lhe perguntado isso. Mas eu gostava de falar com ela. Vou pensar numa uma pergunta mais original… ,Ashley Dowling meditou.
…Talvez esteja na minha aula de Espanhol…, June Richardson desejou.
…Tenho toneladas de coisas para fazer essa noite! Trigonometria e o teste de inglês. Espero que a minha mãe…
Angela Weber, uma rapariga tímida, cujos pensamentos eram anormalmente gentis, era a única na mesa que não estava obcecada com aquela Bella.
Conseguia ouvi-los a todos, ouvir cada coisinha insignificante que eles pensavam enquanto os pensamentos passavam nas suas mentes. Mas absolutamente nada vinha da nova estudante com olhos enganosamente comunicativos.
E, é claro, eu conseguia ouvir o que a rapariga dizia quando falava com Jessica. Eu não precisava ouvir os pensamentos para ouvir sua voz baixa, clara, no outro lado da sala.
- Qual deles é o rapaz com cabelo castanho arruivado? – Ouvi-a a perguntar, enquanto dava uma olhadela pelo canto dos olhos, mas desviou rapidamente quando viu que eu ainda estava a olhar para ela.
Se eu tivesse que esperar que o som da voz dela me pudesse ajudar a conectar aos seus pensamentos, que estavam perdidos em algum lugar onde eu não podia chegar, ficaria instantaneamente desapontado. Geralmente, os pensamentos das pessoas vinham acompanhados por um grupo de frases que diziam completamente o contrário nas suas vozes físicas. Mas aquela voz baixa, tímida, não era familiar, não era nenhuma das centenas de vozes que rodeavam a sala, eu tinha a certeza disso. Ela era inteiramente nova.
Oh, boa sorte, idiota! A Jessica pensou antes de responder à pergunta dela.
- É o Edward. É lindo, como é evidente, mas não percas tempo. Ele não sai com raparigas. Pelos vistos, nenhuma das raparigas daqui é suficientemente atraente para ele – Torceu o nariz como se a fungar.
Virei a minha cabeça para esconder um sorriso. A Jessica e as suas amigas não tinham a mínima ideia da sorte que tinham por nenhuma delas ser particularmente apelativa para mim.
Por baixo do humor passageiro, senti um estranho impulso, um que não entendia claramente. Tinha alguma coisa a ver com os pensamentos maldosos de Jessica, dos quais a rapariga nova não fazia ideia… Senti uma estranha urgência de me meter entre elas, para proteger aquela Bella Swan dos trabalhos obscuros da mente de Jessica. Que coisa estranha para se sentir. A tentar entender as motivações por trás desse impulso, examinei a rapariga nova mais uma vez. Talvez fosse algum instinto de protecção que estava há muito tempo enterrado - o mais forte pelo mais fraco. Esta rapariga parecia mais frágil do que as suas novas colegas de turma. A pele dela era tão translúcida que era difícil de acreditar que ela oferecia tanta resistência ao mundo exterior. Conseguia ver o ritmo da pulsação do sangue através das veias dela, debaixo da sua membrana clara, pálida…Mas não me ia concentrar nisso. Eu era bom nesta vida que tinha escolhido, mas eu estava com tanta sede quanto o Jasper, e era melhor não convidar a tentação.
Havia uma fraca linha de preocupação entre as suas sobrancelhas da qual ela não parecia aperceber-se.
Isto era inacreditavelmente frustrante! Eu conseguia ver claramente que ela estava tensa por ter que se sentar ali, ter que conversar com estranhos, ser o centro das atenções.
Conseguia sentir a sua timidez pela maneira como segurava os seus ombros de aparência frágil, levemente encolhidos, como se estivesse à espera de ser empurrada a qualquer momento. E, mesmo assim, eu só podia sentir, só podia ver, só podia imaginar. Não havia nada sem ser silêncio vindo daquela rapariga humana muito normal.
Eu não conseguia ouvir nada. Porquê?
- Vamos? - A Rosalie murmurou, interrompendo a minha concentração. Desviei o olhar da rapariga com uma sensação de alívio. Não queria continuar a falhar naquilo - isso irritava-me. Eu não queria desenvolver nenhuma espécie de interesse especial pelos seus pensamentos simplesmente porque estavam escondidos de mim. Sem dúvida, quando eu conseguisse decifrar os seus pensamentos - e eu ia encontrar uma forma de fazer isso - eles iam ser exactamente tão insignificantes e banais quanto os pensamentos de qualquer humano. Não iam valer o esforço que eu faria para os alcançar.
- Então, a novata já está com medo de nós? - O Emmett perguntou, ainda à espera da resposta à pergunta anterior.
Encolhi os ombros. Ele não estava interessado o suficiente para me pressionar por mais informações. E eu também não devia estar interessado.
Levantámo-nos da mesa e saímos do refeitório.
Emmett, Rosalie e Jasper estavam a fingir estar no último ano; foram para as aulas deles. Eu estava a fingir ser mais novo que eles. Fui para a minha aula de Biologia do nível médio, preparando a minha mente para o tédio. Era pouco provável que o Sr. Banner, um homem com uma inteligência não mais que comum, pudesse dizer na sua aula alguma coisa que pudesse surpreender alguém que já tinha dois níveis de graduação em medicina.
Na sala de aula, sentei-me na minha cadeira e deixei os livros - adereços de novo; eles não tinham nada que eu já não soubesse - espalhados pela mesa. Eu era o único aluno que tinha uma mesa só para si. Os humanos não eram espertos o suficiente para saber que tinham medo de mim, mas os seus instintos de sobrevivência eram suficientes para mantê-los afastados de mim.
A sala foi-se enchendo lentamente enquanto eles voltavam do almoço. Inclinei-me na minha cadeira e esperei que o tempo passasse. Outra vez, desejei ser capaz de dormir.
Como eu estava a pensar nela, quando Angela Weber acompanhou a rapariga nova pela porta, o nome dela chamou a minha atenção.
A Bella parece ser tão tímida quanto eu. Aposto que hoje foi muito difícil para ela. Eu queria poder dizer alguma coisa… Mas provavelmente só ia parecer uma estúpida…
Boa!
Mike Newton virou-se na sua cadeira para observar a entrada da rapariga.
Ainda, do lugar onde Bella estava, nada. O espaço vazio onde os pensamentos dela deviam estar deixou-me irritado e enervado.
Ela aproximou-se, passando pelo corredor ao meu lado para chegar à mesa do professor.
Pobre rapariga; o lugar ao meu lado era o único que estava vazio.
Automaticamente, limpei aquele que seria o lado dela da mesa, colocando os meus livros numa pilha. Duvidava que ela se fosse sentir muito confortável aqui. Ia ter que aguentar um longo período - nesta aula, pelo menos. Talvez, no entanto, se ela se sentasse ao meu lado, eu fosse capaz de desvendar os seus segredos… não que alguma vez tivesse precisado de tanta proximidade… não que eu fosse encontrar alguma coisa que valesse a pena ouvir…
Bella Swan caminhou para o fluxo do ar aquecido que soprava na minha direcção do aquecedor.
O cheiro dela atingiu-me como uma bola, como um bastão de basebol. Não existe nenhuma imagem violenta o suficiente para explicar a força do que aconteceu comigo naquele momento.
Naquele instante, eu não era nada nem perto do humano que um dia fui, nenhum traço da humanidade na qual eu me tentei esconder.
Eu era um predador. E ela era a minha presa. Não havia mais nada neste mundo sem ser essa verdade.
Não havia uma sala cheia de testemunhas - na minha cabeça eles já eram danos colaterais. Já tinha passado o mistério dos pensamentos dela. Os pensamentos dela não significavam nada, ela não ia passar muito mais tempo a pensar.
Eu era um vampiro e ela tinha o sangue mais doce que eu já tinha cheirado em oitenta anos.
Nunca imaginei que um cheiro assim pudesse existir. Se eu soubesse que existia, já tinha saído à procura há muito tempo. Eu teria vasculhado o planeta por ela. Conseguia imaginar o sabor…
A sede queimou-me garganta como fogo. A minha boca estava torrada e desidratada. O fluxo fresco de veneno não fez nada para afastar essa sensação. O meu estômago revirou-se com fome que era um eco da sede. Os meus músculos contraíram-se para atacar.
Nem tinha passado um segundo. Ela ainda estava no mesmo passo que a tinha colocado no vento na minha direcção.
Enquanto os pés dela tocavam o chão, os seus olhos deslizaram na minha direcção. Um movimento que ela claramente estava à espera que fosse rápido. O olhar dela encontrou o meu, e eu vi-me reflectido no grande espelho dos seus olhos.
O choque do rosto que eu vi salvou-lhe a vida por alguns momentos. Ela não facilitou as coisas. Quando viu a minha expressão, o sangue apareceu-lhe nas bochechas de novo, deixando a pele dela com a cor mais deliciosa que eu já tinha visto. O cheiro era um grosso nevoeiro no meu cérebro. Eu mal conseguia pensar através dele.
Os meus pensamentos enfureceram-se, resistindo ao controle, incoerentes.
Agora ela caminhava mais depressa, como se tivesse percebido que precisava de escapar. A pressa dela deixou-a desastrada - tropeçou e inclinou-se para a frente, caindo quase em cima da rapariga que se sentava à minha frente. Vulnerável, fraca. Até mais que o normal para um humano.
Tentei-me concentrar no rosto que tinha visto nos olhos dela, um rosto que eu reconhecia com nojo. O rosto do monstro em mim - o rosto que eu tinha afastado com décadas de esforço e disciplina inflexível. Como ele tinha voltado à superfície com tanta facilidade agora!
O cheiro invadiu-me novamente, ferindo-me os pensamentos e quase me fez saltar do meu lugar.
Não.
A minha mão agarrou-se à borda da mesa enquanto eu me tentava segurar à cadeira.
A madeira não estava à altura disso. A minha mão partiu-a e afastou-se cheia de restos de fuligem, deixando a marca dos meus dedos cravadas na madeira que restou.
Destruir as provas. Essa era a regra fundamental.
Rapidamente pulverizei os limites da mesa com as pontas dos dedos, sem deixar nada além de um buraco e uma pilha de fuligem no chão, que limpei com o meu pé.
Destruir as provas. Estragos colaterais…
Eu sabia o que tinha que acontecer agora. A rapariga ia ter que se vir se sentar ao meu lado, e eu ia ter que matá-la.
Os inocentes espectadores na sala, outras dezoito crianças e um homem, já não podiam ter permissão para sair daquela sala, assim que vissem o que iam ver em breve.
Fiquei rígido com o pensamento do que planeava fazer. Mesmo nos meus piores dias, nunca tinha cometido este tipo de atrocidade. Nunca matei inocentes em nenhuma destas oito décadas. E agora planeava matar vinte de uma só vez.
O rosto do monstro no espelho gozou comigo.
Mesmo que uma parte de mim se afastasse desse monstro, a outra parte estava a fazer planos.
Se eu matasse a rapariga primeiro, só teria uns quinze ou vinte segundos com ela antes que os outros humanos na sala começassem a reagir. Talvez um pouco mais de tempo, se eles não percebessem logo no início o que eu estava a fazer. Ela não teria tempo de gritar ou de sentir dor; eu não ia matá-la cruelmente. Pelo menos podia dar-lhe isso. Uma morte rápida àquela estranha com sangue horrivelmente desejável.
Mas depois eu iria ter que impedi-los de fugir. Não ia precisar de me preocupar com as janelas, elas eram altas e demasiado pequenas para servir como escapatória para alguém. Só a porta – bloqueio-a e eles ficarão presos.
Ia ser mais lento e difícil se tentasse matá-los a todos quando estivessem em pânico e a misturarem-se, movimentarem-se no caos. Nada impossível, mas iria haver muito mais barulho. Ia dar tempo para muitos gritos. Alguém poderia ouvir… e eu seria obrigado a matar ainda mais inocentes naquela hora negra.
E o sangue dela iria arrefecer enquanto eu estivesse a assassinar os outros.
O cheiro castigou-me, fechando a minha garganta com uma dor seca…
Então seriam as testemunhas primeiro.
Planeei tudo na minha cabeça. Estaria no meio da sala, na fila mais afastada do fundo. Ia tratar do lado direito primeiro. Podia morder quatro ou cinco pescoços por segundo, fiz uma estimativa. Não seria barulhento. O lado direito seria o lado de sorte; eles não me iam ver a chegar. Levar-me-ia, no máximo, cinco segundos a acabar com todas as vidas nesta sala.
Tempo o suficiente para Bella Swan ver, num instante, o que se estava a preparar para ela. Tempo o suficiente para ela sentir medo. Tempo suficiente, talvez, se o choque não a congelasse no lugar, para ela tentar gritar. O gritinho suave não faria ninguém aparecer a correr.
Respirei fundo, e o cheiro era como um fogo a correr nas minhas veias secas, queimando por dentro do meu peito para consumir qualquer impulso de bondade do qual eu ainda fosse capaz.
Ela estava a virar-se agora. Dentro de alguns segundos, ela ia sentar-se a apenas alguns centímetros de mim.
O monstro na minha cabeça sorriu com a antecipação.
Alguém fechou uma pasta ao meu lado. Eu não me virei para ver qual dos humanos predestinados tinha feito isso, mas o movimento mandou uma onda de vento sem cheiro na minha direcção.
Por um curto segundo, fui capaz de pensar com clareza. Naquele precioso segundo, eu vi dois rostos na minha cabeça, lado a lado.
Um era o meu, ou o que foi um dia: o monstro de olhos vermelhos que já tinha morto tantas pessoas que já tinha parado de contar o número. Assassinatos racionalizados, justificados. Um assassino de assassinos, um assassino de outros monstros, menos poderosos. Era um complexo de ser Deus, eu sabia disso - decidir quem merecia uma sentença de morte. Era um compromisso comigo mesmo. Eu tinha-me alimentado de sangue humano, mas apenas humanos na sua definição mais fraca. As minhas vítimas eram, nos seus violentos dias negros, tão humanos quanto eu era.
O outro rosto era o de Carlisle.
Não havia nenhuma semelhança entre os dois rostos.
Eles eram como o dia mais claro e a noite mais escura. Não havia motivo para que houvesse uma semelhança. Carlisle não era meu pai no sentido biológico básico. Nós não tínhamos feições semelhantes. A similaridade na nossa cor era apenas por causa do que éramos; todos os vampiros tinham a mesma cor pálida como gelo. A similaridade da cor dos nossos olhos era outra coisa - uma reflexão da nossa escolha mútua.
E, mesmo assim, apesar de não haver bases para uma semelhança, eu tinha imaginado que o meu rosto tinha começado a reflectir o dele, até um certo ponto, nos últimos estranhos setenta anos em que eu abracei a escolha dele e segui os seus passos. O meu rosto não tinha mudado, mas para mim parecia que alguma da sabedoria dela havia marcado a minha expressão, que um pouco da compaixão dele podia ser traçada nos contornos da minha boca, e que as suas sugestões de paciência estavam evidentes nas minhas sobrancelhas.
Todas essas pequenas melhorias estavam escondidas no rosto do monstro. Daqui a alguns instantes, não ia haver mais nada que pudesse reflectir os anos que eu tinha passado com o meu criador, o meu mentor, o meu pai em todas as formas que se podia contar.
Os meus olhos iam ficar a brilhar vermelhos como os do diabo; todas as semelhanças estariam perdidas para sempre.
Na minha cabeça, os olhos bondosos de Carlisle não me julgavam. Eu sabia que ele me perdoaria por este terrível acto que eu ia cometer. Porque ele me amava. Porque ele pensava que eu era melhor do que eu era na verdade. E ele ia continuar a amar-me, mesmo agora, quando eu provasse que ele estava errado.
Bella Swan sentou-se ao meu lado, os seus movimentos eram rígidos e estranhos - com medo? -, E o cheiro do sangue dela criou uma inexorável nuvem ao meu redor.
Eu ia provar que meu pai estava errado sobre mim. A tristeza desse facto doía quase tanto como o fogo na minha garganta.
Eu afastei-me dela com repulsa - revoltado com o monstro a implorar para atacá-la.
Por que é que ela tinha que vir para aqui? Por que é que ela tinha que existir?
Por que é que ela tinha que acabar com o pouco de paz que eu tinha nesta minha não vida? Por que esta humana tinha que ter nascido? Ela ia arruinar-me.
Desviei a minha cara para longe dela, enquanto uma súbita fúria, um aborrecimento irracional passou por mim.
Quem é que era esta criatura? Porquê eu, porquê agora? Por que é que eu tinha que perder tudo só porque ela escolheu aparecer nesta cidade improvável?
Por que é que ela tinha que vir para cá?!
Eu não queria ser o monstro! Eu não queria matar esta sala cheia de crianças indefesas! Eu não queria perder tudo o que tinha conseguido com uma vida inteira de sacrifícios e negações!
Eu não ia fazer isso. Ela não me ia obrigar.
O cheiro era o problema, o cheiro odiosamente apelativo do sangue dela. Se houvesse alguma forma de resistir… se apenas um sopro de ar fresco pudesse limpar a minha cabeça.
A Bella Swan balançou os seus longos, grossos cabelos castanhos na minha direcção.
Ela era louca?! Era como se estivesse a encorajar o monstro! Incentivando-o.
Não havia nenhuma brisa amigável para afastar o cheiro de mim agora. Ia estar tudo perdido em breve.
Não, não havia nenhuma brisa amigável. Mas eu não precisava de respirar. Parei o fluxo de ar para os meus pulmões; o alívio foi instantâneo, mas incompleto.
Eu ainda tinha na memória o cheiro, o gosto no fundo da minha língua. Não ia ser capaz de resistir por muito mais tempo. Mas talvez conseguisse resistir por uma hora. Uma hora. Só o tempo suficiente para sair desta sala cheia de vítimas, vítimas que talvez não precisassem de ser vítimas. Se eu pudesse resistir durante uma curta hora.
Ficar sem respirar era uma sensação desconfortável. O meu corpo não precisava de oxigénio, mas isso ia contra os meus instintos. Eu aproveitava-me daquele sentido muito mais do que qualquer outro quando estava stressado. Guiava-me nas caças, era o primeiro avisar-me em casos de perigo.
Não me cruzava com alguma coisa tão perigosa como eu com frequência, mas a auto-preservação era tão forte na minha espécie quanto nos humanos.
Desconfortável, mas suportável. Mais suportável do que sentir o cheiro dela e não cravar os meus dentes naquela pele bonita, fina, transparente… até ao quente, molhado, sangue?
Uma hora! Só uma hora. Não vou pensar no cheiro, no gosto.
A rapariga silenciosa manteve o cabelo dela entre nós, inclinando-se para a frente até que ele se espalhou no caderno dela. Não conseguia ver o rosto dela para tentar ler as emoções dela através de seus olhos claros, profundos. Era por isso que ela estava a deixar aquele cabelo entre nós? Para esconder os olhos de mim? Por medo? Timidez? Para esconder os seus segredos de mim?
A minha antiga irritação por ser incapacitado pelos seus pensamentos sem som era fraca e pálida em comparação à necessidade - e ao ódio - que me possuía agora. Eu odiava esta mulher, criança ao meu lado, odiava-a com todas as forças. Odiava-a, odiava o que ela me fazia sentir - e isso ajudou um pouco.
Agarrei-me a qualquer emoção que me distraísse do pensamento de qual seria o gosto dela…
Ódio e irritação. Impaciência. Será que aquela hora nunca mais ia passar? E quando passasse… Então ela ia sair desta sala. E eu ia fazer o quê?
Eu podia apresentar-me. Olá, meu nome é Edward Cullen. Posso acompanhar-te até a tua próxima aula?
Ela iria dizer que sim. Era a coisa mais educada a fazer-se. Mesmo a sentir medo de mim, como eu suspeitava que ela já sentia, ela iria acompanhar-me convencionalmente e caminhar ao meu lado. Seria fácil o suficiente guiá-la na direcção errada.
Havia um pedaço da floresta que me parecia bastante útil agora. Podia dizer-lhe que me tinha esquecido de um livro no carro…
Será que alguém ia reparar que eu fui a última pessoa com quem ela tinha sido vista?
Estava a chover, como sempre. Dois casacos escuros para a chuva a moverem-se na direcção errada não iam chamar muita atenção, nem me denunciariam.
A não ser pelo fato de eu não ser o único estudante que estava consciente dela hoje - apesar de nenhum estar tão devastadoramente consciente dela quanto eu. Mike Newton, em particular, estava atento a cada movimento que ela fazia a mexer-se na cadeira - ela estava desconfortável ao meu lado, assim como qualquer um estaria, assim como eu já esperava antes que o cheiro dela destruísse todos os traços de preocupação por caridade. Mike Newton iria reparar se ela deixasse a sala comigo.
Se conseguisse aguentar uma hora, será que conseguia aguentar duas? Encolhi-me com a dor ardente que sentia na garganta.
Ela ia para uma casa vazia. O chefe de polícia Swan trabalhava o dia inteiro. Eu conhecia a casa dele, assim como conhecia todas as casinhas da cidade. A casa dele ficava acima da encosta da floresta, sem vizinhos próximos. Mesmo se ela tivesse tempo para gritar, e não teria, não ia haver ninguém por perto para ouvir.
Essa era a forma mais responsável de lidar com isto. Eu tinha aguentado sete décadas sem sangue humano. Se eu sustivesse a respiração, conseguia aguentar duas horas. E quando a encontrasse sozinha, não ia haver oportunidades de mais alguém se magoar. E não há motivo para apressar a experiência, o monstro na minha cabeça concordou.
Estava-me a enganar ao pensar que, se salvasse os dezanove humanos desta sala com esforço e paciência, seria menos monstro quando matasse aquela rapariga inocente.
Apesar de odiá-la, eu sabia que o meu ódio era injusto. Sabia que quem realmente odiava era eu mesmo. Ia odiar-nos aos dois ainda mais quando ela estivesse morta.
Consegui passar a hora desta maneira - a imaginar as melhores formas de matá-la.
Tentei evitar pensar no acto de verdade. Isso ia ser demais para mim; ia acabar por perder esta batalha e matar toda a gente que visse. Então planeei a estratégia e nada mais.
Isso ajudou-me a passar a hora.
Uma vez, quase no fim, ela olhou para mim pela parede dos seus cabelos. Conseguia sentir o ódio injustificado a queimar-me quando olhei para os olhos dela - vi o meu reflexo nos seus olhos assustados. O sangue pintou as suas bochechas antes que ela conseguisse esconder-se outra vez nos seus cabelos, e eu quase que me desfiz.
Mas a campainha tocou. Salva pela campainha - que cliché. Nós os dois estávamos salvos. Ela, salva da sua morte. Eu, salvo por um curto período de tempo de ser a criatura de pesadelos que eu temia e não suportava.
Não consegui caminhar tão devagar quanto devia quando saí da sala. Se alguém estivesse a olhar para mim, podia ter suspeitado que estava alguma coisa mal na maneira como eu me movia. Ninguém estava a prestar-me atenção. Todos os pensamentos humanos ainda rondavam a rapariga que estava condenada a morrer em pouco mais de uma hora.
Escondi-me no meu carro.
Não gostava de pensar em mim mesmo a ter que me esconder. Isso soava muito cobarde. Mas esse era inquestionavelmente o caso agora.
Eu não estava suficientemente disciplinado para ficar perto de humanos agora. Concentrar-me tanto em não matar um deles tinha acabado com todos os meus recursos para resistir a matar os outros. Que desperdício isso seria. Se eu tinha que dar o braço a torcer para o monstro, podia pelo menos fazer o desafio valer a pena.
Pus o CD de música que normalmente me acalmava, mas fez pouco por mim agora. Não, o que mais ajudou agora foi o ar frio, molhado, limpo que entrava com a chuva pelas minhas janelas abertas. Apesar de me conseguir lembrar do cheiro do sangue de Bella Swan com perfeita clareza, inalar o ar limpo era como lavar o interior do meu corpo contra as infecções.
Estava são de novo. Conseguia pensar de novo. E conseguia lutar de novo. E eu podia lutar contra o que eu não queria ser.
Eu não tinha que ir até casa dela. Eu não queria matá-la.
Obviamente, eu era uma criatura racional, uma criatura que pensava, e eu tinha uma escolha. Havia sempre uma escolha.
Não era isso que parecia na sala de aula… mas agora eu estava longe dela. Talvez, se eu a evitasse muito, muito cuidadosamente, não houvesse motivos para a minha vida mudar. Eu tinha as coisas sob controlo da maneira como elas eram agora. Porque é que eu devia deixar alguém agravante e delicioso arruinar isso? Eu não tinha que desapontar o meu pai. Eu não tinha que causar stress à minha mãe, preocupação… dor. Sim, isso ia magoar a minha mãe adoptiva também. E Esme era tão gentil, tão delicada e suave. Causar dor a alguém como Esme era verdadeiramente imperdoável.
Era irónico que eu tivesse tido vontade de proteger aquela rapariga da ameaça desprezível, sem dentes, dos pensamentos de Jessica Stanley. Eu era a última pessoa que iria querer servir de protector de Isabella Swan. Ela jamais precisaria de protecção de mais alguma coisa que não fosse eu.
Onde estava a Alice? Perguntei-me de repente. Ela não me tinha visto a matar a rapariga Swan de alguma maneira? Porque é que ela não apareceu para ajudar - para me parar ou para me ajudar a limpar as provas, o que quer que fosse? Será que ela estava tão preocupada em livrar Jasper de problemas que ela tinha deixado passar aquela possibilidade muito mais horrorosa? Será que eu era mais forte do que eu pensava? Será que eu realmente não teria feito nada com a rapariga?
Não. Eu sabia que isso não era verdade. A Alice deve estar a concentrar-se bastante no Jasper.
Procurei na direcção em que eu sabia que ela estava, no pequeno edifício que era usado para as aulas de inglês. Não me levou muito tempo localizar a sua “voz” familiar. E eu estava certo. Todos os seus pensamentos estavam voltados para o Jasper, a ver todas as suas pequenas escolhas a cada minuto.
Desejei poder pedir-lhe os seus conselhos, mas, ao mesmo tempo, estava feliz que ela não soubesse do que eu era capaz. Que ela não soubesse do massacre que eu tinha planeado na hora anterior.
Senti um novo ardor pelo meu corpo - o da vergonha. Eu não queria que nenhum deles soubesse.
Se eu pudesse evitar a Bella Swan, se eu conseguisse não a matar - mesmo enquanto eu pensava nisso, o monstro trincava e rangia os dentes, cheio de frustração - então ninguém teria que saber. Se eu pudesse manter distância do cheiro dela…
Não havia razão para que eu não tentasse, pelo menos. Fazer uma boa escolha. Tentar ser o que Carlisle pensava que eu era.
A última hora de escola já estava quase acabada. Decidi começar a colocar o meu novo plano em acção imediatamente. Era melhor do que ficar sentado no estacionamento, onde ela poderia passar a qualquer minuto e arruinar a minha tentativa. De novo, eu senti o ódio injusto por aquela rapariga. Eu odiava que ela tivesse aquele poder inconsciente sobre mim. Que ela conseguisse fazer-me ser algo que eu repugnava.
Caminhei rapidamente - um pouco rapidamente demais, mas não havia testemunhas - através do pequeno átrio até a secretaria. Não havia razão para Bella Swan cruzar o meu caminho. Ela seria evitada como a praga que ela era.
A secretaria estava vazia, com excepção da secretária, a única que eu queria ver.
Ela não reparou na minha entrada silenciosa.
- Sra. Cope?
A mulher com o cabelo vermelho pouco natural olhou para cima e os olhos dela arregalaram-se. Apanhava-os sempre de surpresa, pequenos sinais que eles não conseguiam entender, independentemente de quantos de nós eles já tivessem visto.
- Oh. - Ela ofegou, um pouco corada. Alisou a blusa. Tonta, pensou consigo mesma. Ele é quase novo o suficiente para ser meu filho. Demasiado novo para eu pensar nele dessa maneira… - Olá, Edward. O que é que posso fazer por ti? - As suas pestanas flutuaram por trás das lentes dos seus óculos grossos.
Desconfortável. Mas eu sabia ser charmoso quando queria ser. Era fácil, já que era capaz de saber instantaneamente como qualquer tom ou gesto meu era recebido.
Inclinei-me para a frente, encontrei o seu olhar como se estivesse a olhar profundamente dentro dos seus olhos castanhos rasos, pequenos. Os pensamentos dela já estavam descontrolados. Isto ia ser fácil.
- Estava-me a perguntar se não me podia ajudar com os meus horários - disse com a minha voz suave que era reservada a não assustar humanos.
Ouvi o ritmo do coração dela a acelerar.
- É claro, Edward. Como é que posso ajudar? - Demasiado jovem, demasiado jovem, repetiu para si mesma. Errada, é claro. Eu era mais velho que o avô dela. Mas, segundo a minha carta de condução, ela estava certa.
- Perguntava-me se podia trocar a minha aula de Biologia para o nível mais alto de Ciências. Física, talvez?
- Algum problema com o Sr. Banner, Edward?
- Claro que não, é só que eu já estudei aquela matéria…
- Naquela escola acelerada em que estudaste no Alasca, certo. - Os seus lábios finos torceram-se enquanto ela considerava isso. Eles todos já deviam estar na faculdade. Já ouvi todos os professores a reclamarem. Notas perfeitas, nunca hesitam antes de responder, nunca respondem errado num teste - como se encontrassem uma forma de fazer batota em todas as matérias. O Sr. Varner preferiria acreditar que existe alguém a copiar do que admitir que existe alguém mais inteligente que ele… Aposto que a mãe deles dá-lhes aulas… - Na verdade, Edward, a aula de física já está muito cheia agora. O Sr. Banner odeia ter mais de vinte e cinco alunos na sala de aula…
- Eu não daria nenhum problema.
É claro que não. Não um Cullen perfeito.
- Eu sei disso, Edward. Mas simplesmente não há lugares suficientes…
- Então posso desistir da aula? Eu posso usar o período para estudos independentes.
- Desistir de Biologia? - A boca dela abriu-se. Isso é uma loucura. É assim tão difícil assistir a uma matéria que já conhece? DEVE haver algum problema com o Sr. Banner. Pergunto-me se devo falar sobre isso com o Bob. – Não ias ter créditos suficientes para acabar o liceu.
- Posso recuperar no próximo ano.
- Talvez devesses falar com os teus pais sobre isto.
A porta abriu-se atrás de mim, mas quem quer que fosse não estava a pensar em mim, então ignorei a chegada e concentrei-me na Sra. Cope. Inclinei-me um pouco mais para perto dela e abri os olhos mais um bocado. Isto funcionaria melhor se eles estivessem dourados em vez de pretos. A escuridão assustava as pessoas, tal como devia.
- Por favor, Sra. Cope? - Fiz com que a minha voz ficasse mais suave e convincente, e isto podia ser consideravelmente convincente. - Não há uma outra hora à qual eu possa mudar-me? Será que não existe nenhuma vaga aberta nalgum lugar? Biologia no sexto tempo pode ser a única opção…
Sorri-lhe, tomando o cuidado de não mostrar demasiado os dentes para não a assustar, e deixei que a expressão se suavizasse no meu rosto.
O coração dela bateu mais rápido. Demasiado Jovem, dizia freneticamente para si mesma. - Bom, talvez eu pudesse falar com Bob, quero dizer, o Sr. Banner. Eu posso ver se…
Um segundo foi o que levou para tudo mudar: a atmosfera na sala, a minha missão aqui, a razão pela qual eu me inclinava para a mulher de cabelos vermelhos… O que tinha sido por um propósito, agora era por outro.
Um segundo foi só o que demorou para a Samantha Wells abrir a porta e mandar um papel assinado para o cesto ao lado da porta e correr para fora outra vez, com pressa de sair da escola. Um segundo foi tudo o que levou para que uma rajada repentina de vento passasse pela porta e me viesse atingir. Um segundo foi o tempo que eu levei para me aperceber por que é que aquela primeira pessoa não me tinha atrapalhado com os seus pensamentos.
Virei-me, apesar de não precisar de confirmar. Virei-me lentamente, enquanto lutava para controlar os meus músculos que se revoltavam contra mim.
A Bella Swan ficou com as costas pressionadas na parede ao lado da porta, com um papel agarrado nas mãos.
Os olhos dela estavam ainda maiores do que o normal quando reparou no meu olhar feroz, desumano.
O cheiro dela preencheu cada pequena partícula de ar na sala pequena, quente. A minha garganta ficou em chamas.
O monstro olhou para mim pelo espelho dos olhos dela de novo, uma máscara do mal.
A minha mão hesitou no ar em cima do balcão. Não teria que olhar para bater com a cabeça da Sra. Cope na mesa dela com força suficiente para a matar. Duas vidas, ao invés de vinte. Uma troca.
O monstro esperou ansiosamente, faminto, que eu fizesse isso.
Mas havia sempre uma escolha - tinha que haver.
Parei o movimento dos meus pulmões e fixei o rosto de Carlisle à frente dos meus olhos. Virei-me para olhar para a Sra. Cope e ouvi a surpresa interna dela com a mudança da minha expressão. Ela afastou-se de mim, mas o medo dela não se notou nas palavras coerentes.
Usando todo o auto-controle que tinha aprendido nas minhas décadas de auto-negação, tornei a minha voz uniforme e suave. Tinha ar o suficiente nos pulmões para falar uma última vez, apressando as palavras.
- Então esqueça. Vejo que é impossível. Muito obrigado pela sua ajuda.
Virei-me e lancei-me pela porta, tentando não sentir o calor do sangue quente do corpo da rapariga enquanto passei a apenas alguns centímetros dela.
Não parei até estar no meu carro, movendo-me rápido demais todo o caminho até lá.
A maioria dos humanos já tinha ido embora, então não havia muitas testemunhas.
Ouvi um rapaz do segundo ano, D.J. Garrett, reparar e depois não dar importância…
De onde é que o Cullen saiu? Foi como se tivesse aparecido com o vento… Lá estou eu com a minha imaginação outra vez. A minha mãe diz sempre…
Quando deslizei para dentro do meu Volvo, os outros já estavam lá. Tentei controlar a minha respiração, mas eu estava a asfixiar por ar fresco como se estivesse a sufocar.
- Edward? - A Alice perguntou com uma voz alarmada.
Só lhe abanei a minha cabeça.
- O que diabos é que te aconteceu? - O Emmett quis saber, distraído, por um momento, do facto de Jasper não estar numa de aceitar a sua vingança.
Em vez de responder, fiz marcha-atrás com o carro. Eu tinha que sair deste estacionamento antes que a Bella me seguisse para aqui também. O meu demónio pessoal perseguir-me… Virei o carro e acelerei. Já estava nos quarenta antes de chegar à estrada. Na estrada, fiz setenta antes de chegar à esquina.
Sem olhar, eu sabia que Emmett, Rosalie e Jasper se tinham virado todos para olhar para a Alice.
Levantou os ombros. Ela não podia ver o que se tinha passado, só o que estava para acontecer.
Olhou para mim agora. Nós os dois estávamos a processar o que ela tinha visto na sua cabeça, e ambos estávamos surpreendidos.
- Tu vais-te embora? - Ela sussurrou.
Os outros olharam para mim agora.
- Vou? - Expirei através dos meus dentes.
Ela viu então, enquanto a minha decisão ia para outro caminho e outra escolha virava o meu futuro para uma direcção mais escura.
- Oh.
A Bella Swan morta. Os meus olhos a brilharem, vermelhos com o sangue fresco. A procura que se seguiria. O tempo cuidadoso que nos levaria a esperar até que fosse seguro sair e começar tudo de novo…
- Oh - ela disse outra vez. A imagem ficou mais específica. Eu vi o interior da casa do Chefe Swan pela primeira vez, vi a Bella na pequena cozinha com os armários amarelos, com as costas viradas para mim enquanto eu a perseguia na escuridão… deixava que o seu cheiro me guiasse até ela…
- Pára! - Rugi, incapaz de aguentar mais.
- Desculpa - Sussurrou com os olhos arregalados.
O monstro gostou.
E a visão na cabeça dela mudou outra vez. Uma avenida vazia à noite, as árvores ao lado cobertas de neve, a brilhar com os quase duzentos quilómetros por hora.
- Vou ter saudades tuas - disse. - Independentemente de quão curto seja o tempo que vás ficar fora.
Emmett e Rosalie trocaram um olhar apreensivo.
Nós já estávamos quase na curva da longa estrada que levava à nossa casa.
- Deixa-nos aqui - A Alice sugeriu. – Devias dizer isso ao Carlisle pessoalmente.
Abanei a cabeça e o carro chiou quando parou de repente.
Emmett, Rosalie e Jasper saíram silenciosamente; eles iam fazer com que a Alice explicasse tudo quando eu fosse embora. A Alice tocou-me no ombro.
- Tu vais fazer a coisa acertada - murmurou. Não era uma visão desta vez, era uma ordem. - Ela é a única família de Charlie Swan. Isso matá-lo-ia também.
- Sim - eu disse, a concordar apenas com a última parte.
Ela saiu para se juntar aos outros, as sobrancelhas dela estavam juntas por causa da ansiedade.
Eles enfiaram-se nas matas, desaparecendo de vista antes que eu pudesse virar o carro.
Acelerei de volta à cidade, e eu sabia que as visões na cabeça de Alice estariam a passar de negras a claras num piscar de olhos.
Enquanto acelerava para Forks a mais de noventa quilómetros por hora, eu não tinha certeza de para onde é que estava a ir. Dizer adeus ao meu pai? Ou aceitar o monstro que havia dentro de mim? A estrada passava a voar por baixo dos meus pneus.

4 comentários:

Anónimo disse...

Muito obrigada!
Procurei freneticamente esse livro na internet!
Não sabe o quanto a agradeço!
Obrigada novamente!

Anónimo disse...

Maiia
Nossa, tambem procurei demais por informaçoes, ou algo sobre esse livro; abri esse blog e tive a sorte de achar todo ele! uashauhsua

Joici, quando ler comenta tbm amiga ♥

Alexandra Santos disse...

Bgd plo coment =)
Mas na verdade o livro aind nao ta td traduzido =S

Anónimo disse...

Peço desculpa pela minha ignorância, mas realmente só agora soube da existência deste livro.
Está mesmo muito bom, adorei, obrigado por toda a tradução, muito boa mesmo.

Continuação de bom trabalho