domingo, 16 de agosto de 2009

Capítulo 9 - Port Angeles

9. Port Angeles.


Estava demasiado claro para eu conduzir pelo centro da cidade quando cheguei a Port Angeles. O sol ainda estava demasiado elevado, e apesar de os meus vidros serem fumados, não havia nenhum motivo para tomar riscos desnecessários. Mais riscos desnecessários, devia dizer.
Eu tinha a certeza que era capaz de encontrar os pensamentos da Jessica de longe, os pensamentos da Jessica eram mais altos do que os de Angela, mas assim que eu encontrasse o primeiro pensamento, ia conseguir ouvir o segundo. Depois, quando as sombras se aproximassem, eu ia poder aproximar-me. Por agora, saí da estrada e fui para um parque de estacionamento que ficava fora da cidade e que parecia não ser utilizado.
Eu sabia por onde procurar, havia apenas uma loja para comprar vestidos em Port Angeles. Não demorei muito a encontrar Jessica, estava a olhar-se à frente de um espelho de três lados, e eu conseguia ver Bella na sua visão periférica, a aprovar o longo vestido preto que ela tinha vestido.
A Bella ainda parece irritada. Ah ah. A Angela tinha razão, o Tyler estava todo convencido. Apesar de não acreditar que ela esteja chateada por isso. Pelo menos ela sabe que tem um acompanhante de reserva para o baile. E se o Mike não se divertir no baile não me convidar para sair outra vez? E se ele convidar a Bella para o baile? Será que ela teria convidado o Mike para o baile se eu não tivesse dito nada? Será que ele acha que ela é mais bonita que eu?
- Acho que gosto mais do azul. Realça os teus olhos.
A Jessica sorriu para Bella com um falso entusiasmo, enquanto olhava suspeita para ela.
Será que ela acha mesmo isso? Ou quer que eu pareça uma vaca no Sábado?
Eu já estava cansado de ouvir Jessica. Procurei pela Angela. Ah, mas Angela estava no processo de trocar os vestidos, e eu saí rapidamente da sua cabeça para lhe dar mais privacidade.
Bom, não havia muitos problemas que Bella pudesse arranjar numa loja de vestidos. Eu ia deixá-las fazer as compras e depois quando acabassem eu voltava. Não faltava muito para anoitecer, as nuvens estavam a começar a voltar, sendo levadas para oeste. Eu apenas conseguia ver os reflexos delas através das grandes árvores, mas conseguia ver como aceleravam o pôr-do-sol. Eu recebi-as, desejando-as mais do que já tinha desejado antes. Amanhã eu ia poder sentar-me ao lado de Bella outra vez, podia ter a sua atenção ao almoço novamente. Ia poder perguntar-lhe as coisas que tenho guardado…
Então, ela estava furiosa com a presunção de Tyler. Eu tinha visto aquilo na mente dele, que quando ele tinha falado sobre o baile, que estava a confirmar a companhia de Bella. Eu lembrei-me da expressão dela daquela outra tarde, a escandalizada descrença, e ri-me. Perguntei-me o que é que ela lhe diria sobre isto. Eu não ia gostar de perder a reacção dela.
O tempo passou devagar enquanto esperava que as sombras se alongassem. Olhava periodicamente para a Jessica, a sua voz mental era a mais fácil de ser encontrada, mas eu não gostava de ficar lá dentro por muito tempo. Vi o lugar onde elas estavam a planear ir comer. Ia estar escuro à hora do jantar… talvez eu escolhesse o mesmo restaurante por coincidência. Toquei no telemóvel que estava no bolso, e pensei em convidar a Alice para jantar fora… Ela ia adorar isso, mas ela também iria querer falar com Bella. Eu não tinha certeza se eu estava pronto para envolver Bella ainda mais no meu mundo. Um vampiro não era problema suficiente?
Passei pela mente de Jessica outra vez. Ela estava a pensar sobre as suas jóias, a perguntar a opinião de Angela.
- Talvez eu devesse devolver o colar. Eu tenho um em casa que deve servir, e gastei mais do que devia… - A minha mãe vai-se passar. No que é que eu estava a pensar?
- Eu não me importo de voltar à loja. Mas, achas que a Bella vai à nossa procura?
O que é que era isto? Bella não estava com elas? Vi pelos olhos de Jessica primeiro, e depois troquei para Angela. Elas estavam na calçada em frente a umas lojas, já a mudar de direcção. Bella não estava em nenhum lugar à vista.
Oh, quem é que se importa com a Bella? Pensou Jess, impacientemente, antes de responder à pergunta de Angela. - Ela está bem. Nós vamos chegar ao restaurante a tempo, mesmo se voltarmos à loja. De qualquer das maneiras, eu acho que ela queria estar sozinha. – Apanhei um breve vislumbre da livraria que Jessica achava que a Bella tinha ido.
- Vamos lá então. - Disse Angela. Espero que a Bella não pense que a abandonámos. Há bocado, no carro, ela foi tão simpática comigo… Ela é mesmo uma pessoa muito querida. Mas esteve um bocado triste o dia inteiro. Pergunto-me se era por causa do Edward Cullen? Aposto que foi por isso que ela me perguntou sobre a família dele…
Eu devia ter prestado mais atenção. O que é que eu tinha perdido aqui? Bella estava por aí sozinha, e tinha perguntado por mim antes? Agora Angela estava a prestar atenção a Jessica. Esta estava a tagarelar sobre aquele idiota do Mike, e eu não conseguia arrancar mais nada dela.
Julguei as sombras. O sol ia ficar atrás das nuvens brevemente o suficiente. Se eu ficasse no lado oeste da estrada, onde os prédios estariam a escurecer a rua da luz fraca…
Comecei a sentir-me impaciente enquanto conduzia pelo ligeiro engarrafamento até ao centro da cidade. Isto não era algo que eu tivesse considerado, Bella a andar sozinha, e eu não fazia a mínima ideia de como a encontrar. Eu devia ter considerado isto. A Bella estava sempre a fazer a coisa errada.
Eu conhecia bem Port Angeles. Conduzi directamente para a livraria na mente de Jessica, esperando que a minha busca fosse curta, mas a duvidar que fosse fácil. Desde quando é que Bella facilitava as coisas?
Sem dúvida, a pequena loja estava vazia, excepto uma mulher vestida de forma antiquada atrás do balcão. Aquele não parecia o tipo de lugar em que Bella estivesse interessada. Era muito espiritual para uma pessoa prática. Perguntei-me se ela se tinha dado ao trabalho de entrar.
Havia ali um lugar à sombra onde eu podia estacionar… Fazia um caminho escuro para a loja. Eu realmente não devia. Andar por aí a horas do dia não era seguro. E se um carro que passasse reflectisse a luz do sol para a sombra precisamente na hora errada?
Mas eu não sabia de que outra maneira podia procurar Bella!
Estacionei e saí, mantendo-me no canto mais fundo da sombra. Caminhei rapidamente para a loja, apercebendo-me do fraco rasto do cheiro da Bella no ar. Ela esteve aqui, na calçada, mas não havia nenhuma pista da sua fragrância dentro da loja.
- Bem-vindo! Posso-te ajudar… - Começou a vendedora a dizer, mas eu já estava do lado de fora da porta.
Segui o cheiro da Bella até onde a sombra permitia, e parei quando cheguei à beira da luz do sol.
Quão impotente aquilo me fez sentir. Cercado pela linha entre a escuridão e a luz que se estendia até a calçada à minha frente. Tão limitado.
Eu só podia adivinhar que ela tinha continuado pela rua, ido para o sul. Não havia muito a seguir aquela direcção. Estaria ela perdida? Bom, essa possibilidade parecia-se exactamente com o carácter dela.
Voltei para o carro e conduzi devagar pelas ruas, à procura dela. Saí para alguns outros lugares com sombras, mas só senti o seu cheiro mais uma vez, e o rumo dele confundiu-me. Onde é que ela estava a tentar ir?
Conduzi para a frente e para trás entre a loja e o restaurante algumas vezes, à espera de a ver pelo caminho. Jessica e Angela já lá estavam, a tentar decidir se pediam ou se esperavam por Bella. Jessica já estava a pensar em pedir imediatamente.
Comecei a passar rapidamente pela mente de estranhos, olhando através dos seus olhos. De certeza que alguém a viu em algum lado.
Quanto mais tempo ela estava perdida, mais impaciente eu ficava. Eu não tinha considerado antes quanto difícil seria encontrá-la, como agora, ela estava fora da minha vista e fora dos seus caminhos normais. Eu não gostava disso.
As nuvens estavam a acumular-se no horizonte, e, daqui a alguns minutos, eu ia ficar livre para a localizar a pé. Assim não me levaria muito tempo. Era só o sol que me deixava tão paralisado agora. Apenas mais alguns minutos, e então a vantagem seria minha novamente e o mundo humano é que seria o impotente.
Outra mente, e mais outra. Tantos pensamentos banais.
…acho que o bebé tem outra infecção no ouvido…
Era 18:40 ou 18:04…?
Atrasado outra vez Eu devia contar-lhe…
Aqui vem ela! Aha!

Ali, finalmente, estava a cara dela. Finalmente, alguém tinha reparado nela!
Aquele alívio só durou uma fracção de segundo, e depois li mais os pensamentos do homem que estava a olhar fixamente para a cara dela nas sombras.
A mente dele era a de um estranho para mim, e mesmo assim, completamente familiar. Eu já tinha caçado pessoas com tal mente.
- NÃO! - Rugi, e um nó apertou-se na minha garganta. O meu pé afundou-se no acelerador, mas para onde é que eu estava a ir?
Eu sabia mais ou menos o rumo dos seus pensamentos, mas aquilo não era específico o suficiente. Alguma coisa, devia haver alguma coisa, uma placa de rua, a montra de uma loja, alguma coisa na sua vista que entregasse a sua localização. Mas Bella estava bastante na escuridão, e os olhos dele estavam focados apenas na expressão apavorada dela, a saborear o medo.
O rosto dela estava nublado na mente dele pela memória de outras caras. Bella não era a sua primeira vítima.
O som dos meus rosnados tremeu a estrutura do carro, mas não me distraíram.
Não havia janelas na parede atrás dela. Algum lugar industrial, longe da região de compras que era mais povoada. O meu carro derrapou na esquina, desviando-se de outro veículo, e ia na direcção que eu esperava que fosse o caminho certo. Enquanto o outro carro buzinava, o som já estava bem atrás de mim.
Olha para ela a tremer! O homem riu-se com a expectativa. O medo era a atracção dele ele, era a parte que ele adorava.
- Afaste-se de mim. - A voz dela era baixa e firme, não era um grito.
- Não sejas assim meu docinho.
Ele viu-a hesitar quando um riso rude veio de outra direcção. Ele estava irritado com o barulho. Cala-te, Jeff! Pensou, mas gostou da maneira como ela se encolheu de medo. Excitava-o. Ele começou a imaginar a suplicação, a maneira como ela iria implorar…
Eu não tinha percebido que havia outros com ele até que ouvi aquele alto riso. Procurei por ele, desesperado por alguma coisa que pudesse usar. Ele estava a dar o primeiro passo na direcção dela, a mexer as suas mãos.
As mentes à volta dele não eram o mesmo lixo que a de ele era. Eles estavam ligeiramente bêbados, nenhum deles percebia quão longe o homem chamado Lonnie planeava ir com isto. Estavam a seguir Lonnie cegamente. Ele tinha-lhes prometido um bocado de divertimento…
Um deles olhou rua abaixo, nervoso, ele não queria ser apanhado a assediar a rapariga, e deu-me o que eu precisava. Reconheci a rua para que ele olhou.
Passei por um sinal vermelho, a deslizei através de um espaço amplo o suficiente entre dois carros no trânsito. As buzinas faziam barulho atrás de mim.
O meu telemóvel vibrou no meu bolso. Ignorei-o.
Lonnie movia-se devagar em direcção à rapariga, a criar o suspense, era o momento do terror que o excitava. Ele esperou que ela gritasse, preparando-se para saboreá-lo.
Mas Bella trancou o queixo, e agarrou-se a si própria. Ele estava surpreendido, esperava que ela tentasse fugir. Surpreendido e ligeiramente desapontado. Ele gostava de perseguir a sua presa, a adrenalina da caçada.
Corajosa, esta. Talvez melhor, suponho… vai dar mais luta.
Eu estava a um quarteirão de distância. O monstro agora conseguia ouvir o rugido do meu motor, mas não prestou atenção, estava bastante atento na sua vítima.
Eu ia ver como é que ele ia gostar da caçada quando fosse ela a presa. Eu ia ver o que é que ele achava do meu estilo de caçar.
Noutros compartimentos da minha cabeça, eu já estava a escolher os tipos de torturas que tinha presenciado nos meus tempos de vigilante, procurando pela tortura mais dolorosa. Ele ia sofrer por isto. Ele ia contorcer-se em agonia. Os outros iriam meramente morrer pelas suas participações naquilo, mas o monstro chamado Lonnie iria implorar pela morte bem antes de eu lhe dar esse presente.
Ele estava na estrada, em direcção dela.
Eu virei rapidamente a esquina, os meus faróis clarearam a cena e paralisaram-nos no lugar. Eu podia ter atropelado o líder, que saiu do caminho, mas essa seria uma morte demasiado fácil para ele.
Deixei que o carro deslizasse, virando-se para que ficasse de frente para o caminho de onde eu cheguei e para que a porta do carro ficasse perto da Bella. Abri a porta, e ela já estava a correr para o carro.
- Entra. - Ordenei.
Que diabos?
Sabia que isto era uma péssima ideia! Ela não está sozinha.
Devia correr? Acho que vou vomitar…

Bella saltou pela porta aberta sem hesitar, fechando-a atrás dela.
E então olhou-me com uma expressão de verdadeira confiança que eu nunca tinha visto num rosto humano, e todos os meus planos violentos desmoronaram-se.
Levou muito, muito menos do que um segundo para que eu visse que não a podia deixar no carro para tratar dos quatro homens na rua. O que é que eu lhe ia dizer, para não olhar? Ah! Desde quando é que ela faz o que eu lhe peço? Desde quando é que ela fazia as coisas seguras?
Iria arrastá-los para longe, para fora da visão dela, e deixá-la aqui sozinha? Eram poucas as probabilidades que outro humano perigoso estivesse a rondar as ruas de Port Angeles esta noite, mas as probabilidades já eram poucas antes de ela ter aparecido aqui! Como um íman, ela atraía todas as coisas perigosas para si mesma. Eu não a podia deixar fora da minha vista.
Para ela ia ser como se fosse parte do mesmo movimento quando eu acelerei, afastando-a dos seus perseguidores tão rapidamente que eles ficaram boquiabertos atrás do meu carro com expressões incompreensíveis. Ela não ia perceber o meu instante de hesitação. Ela iria presumir que o plano era escapar desde o início.
Eu nem sequer lhe podia bater com o meu carro. Isso iria assustá-la.
Eu queria a morte dele tão brutalmente que a necessidade disso zumbia nos meus ouvidos, nublava a minha visão e criava um sabor na minha língua. Os meus músculos estavam flectidos com a urgência, o desejo, a necessidade disso. Eu tinha que o matar. Eu iria descascá-lo aos poucos lentamente, pedaço por pedaço, pele do músculo, músculo de osso…
Excepto que a rapariga, a única rapariga no mundo, estava agarrada ao seu banco com as duas mãos, a olhar-me fixamente, os seus olhos ainda muito abertos e a confiar totalmente em mim. A vingança ia ter que esperar.
- Coloca o cinto de segurança. - Mandei. A minha voz foi áspera por causa do ódio e da sede de sangue. Não a comum sede de sangue. Eu não me sujaria ao ponto de pôr qualquer parte daquele homem dentro de mim.
Ela pôs o cinto de segurança no lugar, sobressaltando-se levemente com o som daquilo. Aquele pequeno som fê-la saltar, e ainda assim não estava assustada enquanto eu passava pela cidade, ignorando todos os sinais de trânsito. Eu conseguia sentir os olhos dela em mim. Ela parecia estranhamente relaxada. Não fez sentido para mim, não com o que ela acabou de passar.
- Estás bem? – Perguntou-me. A sua voz estava áspera por causa do stress e medo.
Ela queria saber se eu estava bem?
Pensei na pergunta dela por uma fracção de segundo. Não o tempo suficiente para que ela notasse a minha hesitação. Eu estava bem?
- Não. - Percebi, e o meu tom ferveu com a raiva.
Levei-a pelo mesmo caminho que passei esta tarde, ocupado na mais pobre vigilância que já existiu. Agora estava escuro, por baixo das árvores.
Eu estava tão furioso que o meu corpo paralisou no lugar em que estava, totalmente imóvel. As minhas mãos frias que estavam fechadas desejavam esmagar o agressor dela, pulverizá-lo em pedaços tão mutilados que o seu corpo nunca poderia ser identificado…
Mas isso exigia deixá-la aqui sozinha, desprotegida na noite escura.
- Bella? - Perguntei entre dentes.
- Sim? - Respondeu roucamente. Ela limpou a garganta.
- Estás bem? - Aquilo era mesmo a coisa mais importante, a primeira prioridade. A retribuição era secundária. Eu sabia disso, mas o meu corpo estava tão cheio de raiva que era difícil pensar.
- Estou. - A voz dela ainda estava grossa, com medo, sem dúvida.
Portanto eu não podia deixá-la.
Mesmo se ela não estivesse em risco constante por alguma razão irritante, alguma piada que o universo me quisesse pregar, mesmo se eu tivesse a certeza que ela estaria perfeitamente segura na minha ausência, eu não a podia deixar sozinha no escuro.
Ela deve estar tão assustada.
Mas mesmo assim eu não estava em condições de a consolar, mesmo se eu soubesse exactamente como o fazer, o que não sabia. De certeza que ela conseguia sentir a brutalidade a radiar de mim, de certeza que pelos menos isso era óbvio. Eu iria assustá-la ainda mais se não acalmasse o desejo de massacre a ferver dentro de mim.
Eu precisava de pensar noutra coisa.
- Distrai-me, por favor. - Implorei.
- Desculpa, o que disseste?
Eu mal tinha controlo suficiente para tentar explicar o que precisava.
- Fala apenas sobre algo sem importância até que eu acalme. – Disse-lhe, o meu queixo ainda rígido. Apenas o facto de que ela precisava de mim me prendia dentro do carro. Eu conseguia ouvir os pensamentos do homem. O seu desapontamento e raiva… Eu sabia onde o encontrar… Fechei os olhos, desejando que eu não conseguisse ver nada…
- Hum. – Hesitou. Imaginei que estivesse a tentar encontrar um sentido para o meu pedido. – Amanhã, antes das aulas, vou atropelar o Tyler Crowley? - Ela disse aquilo como se fosse uma pergunta.
Sim, era isto que eu precisava. É claro que Bella ia desencantar algo inesperado. Como tinha sido antes, a ameaça de violência vinda dos seus lábios era hilariante, tão cómica que era estridente. Se eu não estivesse a arder com o desejo de matar, eu ter-me-ia rido.
- Porquê? - Perguntei, para a forçar a falar novamente.
- Anda a dizer a todos que vai acompanhar-me ao baile de finalistas. - Disse, a sua voz estava escandalizada com aquele tom de tigre/gatinho. - Ou está louco ou ainda anda a tentar compensar-me por quase me ter matado no outro dia… bem, tu recordas-te. - Completou com indiferença. – E julga que o baile é, de algum modo, a maneira adequada de o fazer. Logo, calculo que, se eu colocar a vida dele em perigo, ficaremos quietes e ele não poderá continuar a tentar compensar-me. Não preciso de inimigos e talvez a Lauren sossegasse se ele me deixasse em paz. Talvez tenha, todavia, de destruir o Sentra dele - Continuou, agora pensativa. – Se não tiver um meio de transporte, não pode levar ninguém ao baile…
Era encorajador ver que às vezes ela entendia as coisas erradas. A persistência de Tyler não tinha nada a ver com o acidente. Ela não parecia entender a atracção que causava aos rapazes humanos do liceu. Ela não via também a atracção que eu tinha por ela?
Ah, estava a funcionar. O processo confuso da mente dela sempre foi chamativo. Eu estava a começar a ganhar controlo de mim mesmo, a ver alguma coisa além da vingança e da tortura…
- Ouvi falar disso. – Disse-lhe. Ela tinha parado de falar, e eu precisava que ela continuasse.
- Ouviste? - Perguntou duvidosamente. E depois a sua voz ficou mais zangada do que antes. – Se estiver paralisado do pescoço para baixo, também não pode ir ao baile de finalistas.
Desejei que houvesse alguma maneira de lhe poder pedir para continuar com as ameaças de morte e danos corporais sem que eu parecesse um doido. Ela não podia ter escolhido uma melhor maneira de me acalmar. E as palavras dela, apenas sarcasmo e no caso dela, exagero, era do que eu mais precisava neste momento.
Suspirei, e abri os olhos.
- Estás bem? - Perguntou timidamente.
- Nem por isso.
Não, eu estava mais calmo, mas não melhor. Por que acabei de perceber que não podia matar o monstro chamado Lonnie, e eu ainda queria aquilo quase mais do que qualquer outra coisa no mundo. Quase.
A única coisa neste instante que eu queria mais do que um grande justificável assassinato, era esta rapariga. E, apesar de não a poder ter, apenas o sonho de a ter fez com que fosse impossível para mim ir para uma matança esta noite.
Bella merecia mais do que um assassino.
Eu passei sete décadas a tentar ser algo mais do que aquilo, algo mais do que um assassino. Aqueles anos de esforço nunca me poderiam fazer merecedor da rapariga sentada ao meu lado. E mesmo assim, eu senti que se voltasse para aquela vida, a vida de um assassino, por apenas uma noite, ia pô-la fora do meu alcance para sempre. Mesmo se eu não bebesse o sangue deles, mesmo se eu não tivesse a prova a brilhar de vermelho nos meus olhos, será ela não sentiria a diferença?
Eu estava a tentar ser bom o suficiente para ela. Era um objectivo impossível. Eu ia continuar a tentar.
- O que é que se passa? - Sussurrou.
O hálito dela encheu-me o nariz, e aí fui lembrado por que é que não a merecia. Depois de tudo isto, mesmo com o tanto que eu a amava… ela ainda me dava água na boca.
Eu ia dar-lhe o máximo de honestidade que conseguisse. Devia-lhe isso.
- Por vezes, tenho problemas com o meu temperamento, Bella. – Olhei para a noite escura lá fora, desejando que ela ouvisse o horror interno das minhas palavras, e, desejando também que não ouvisse. Principalmente que não ouvisse. Foge, Bella, foge. Fica, Bella, fica… - Mas não adiantaria de nada se eu desse meia volta e perseguisse aqueles… - Só pensar naquilo quase me tirou de dentro do carro. Respirei fundo, deixando que o cheiro dela me queimasse a garganta. – Pelo menos, é disso que tento convencer-me
- Ah.
Ela não disse mais nada. Quanto é que ela teria ouvido das minhas palavras? Olhei para ela pelo canto do olho, mas a sua cara estava ilegível. Branco com o choque, talvez. Bem, ela não estava a gritar. Ainda não.
Ficou silêncio por um momento. Lutei comigo mesmo, a tentar ser o que devia ser. O que eu não conseguia ser.
- A Jessica e a Angela vão ficar preocupadas. - Disse calmamente. A voz dela estava bastante calma, e eu não fazia ideia como é que aquilo era possível. Ela estava em choque? Talvez os eventos desta noite ainda não a tivessem atingido. – Devia ir encontrar-me com elas.
Será que ela queria ficar longe de mim? Ou só estava preocupada com a preocupação das suas amigas?
Eu não lhe respondi, mas liguei o carro e levei-a de volta. A cada mais centímetro que eu me aproximava da cidade, tornava-se mais difícil manter o meu objectivo. Eu estava tão perto dele…
Se fosse possível, se eu nunca pudesse ter ou merecer esta rapariga, então qual era o sentido de deixar o homem impune? De certeza que me podia permitir pelo menos a isso…
Não. Eu não ia desistir. Ainda não. Eu queria-a demasiado para me render.
Estávamos no restaurante onde era combinado ela se ter encontrado com as suas amigas, antes de eu ter começado a racionalizar os meus pensamentos. Jessica e Angela tinham acabado de comer, e agora estavam ambas realmente preocupadas com Bella. Estavam a preparar-se para ir à procura dela, em direcção à rua escura.
Não era uma boa noite para elas andarem por aí a deambular.
- Como é que sabias onde…? - A pergunta inacabada da Bella interrompeu-me, e eu percebi que tinha cometido outro deslize. Eu estava demasiado distraído para me lembrar de lhe perguntar onde é que era suposto ela encontrar as suas amigas.
Mas, em vez de continuar a pergunta e chegar ao ponto da questão, Bella apenas acenou a cabeça e deu um meio sorriso.
O que é que aquilo significava?
Bem, eu não tinha tempo de decifrar a sua estranha aceitação da minha estranha sabedoria. Abri a minha porta.
O que estás a fazer? - Perguntou, parecendo assustada.
A não deixar que saias da minha vista. A não me permitir ficar sozinho este noite. Nessa ordem. – Vou levar-te a jantar.
Bem, isto devia ser interessante. Parecia que tinha sido numa noite completamente diferente quando tinha pensado trazer Alice e tinha pretendido escolher o mesmo restaurante que Bella e as suas amigas, como se fosse acidente. E agora, aqui estava eu, praticamente num encontro com a rapariga. Só que não contava, por que eu não lhe estava a dar a oportunidade de dizer não.
Ela já tinha metade da porta aberta antes que eu desse a volta ao carro, (geralmente não era tão frustrante ter que me mexer a uma velocidade discreta) e não esperou que eu a abrisse. Aquilo era por não estar habituada a ser tratada como uma senhora, ou por não pensar em mim como um cavalheiro?
Fiquei à espera que ela me acompanhasse, e fiquei mais inquieto enquanto as amigas dela continuavam a ir para uma esquina escura.
- Vai atrás da Angela e da Jessica antes que eu tenha também de seguir no seu enlaço. -Pedi rapidamente. – Acho que não conseguiria refrear-me se desse outra vez de caras com aqueles teus amigos. - Não, eu não seria forte o suficiente para aquilo.
Ela estremeceu, e recompôs-se rapidamente. Ela deu um meio passo atrás delas, e chamou, - Jess, Angela! - em voz alta. Elas viraram-se, e ela acenou com a mão para chamar a sua atenção.
Bella! Ah, ela está a salvo! Pensou Angela em alívio.
Um bocadinho atrasada? Resmungou Jessica para si mesma, mas ela, também, estava grata que Bella não estivesse perdida ou ferida. Isso fez-me gostar dela um bocado mais do que antes.
Elas voltaram, e depois pararam, chocadas, quando me viram do lado dela.
Nah-ah! Pensou Jess, impressionada. Não pode!
Edward Cullen? Ela saiu sozinha para se ir encontrar com ele? Mas por que é que ela havia de perguntar acerca de eles estarem fora da cidade se sabia que ele estava aqui…
Vi um breve momento da expressão torturada de Bella quando perguntou a Angela se a minha família ficava muitas vezes ausente da escola. Não, ela não sabia. Decidiu Angela.
Os pensamentos de Jessica variavam da surpresa a suspeita. A Bella andou-me a esconder alguma coisa...
- Onde estiveste? - Exigiu, a olhar para Bella, mas a espiar-me pelo canto dos olhos.
- Perdi-me. E depois encontrei-me com Edward por acaso. – Disse Bella, a agitar uma mão na minha direcção. O tom dela estava muito normal. Como se fosse aquilo que se tivesse mesmo passado.
Ela deve estar em choque. Era a única explicação para a sua tranquilidade.
- Não se importam que eu vos faça companhia? - Perguntei para ser educado. Eu sabia que elas já tinham comido.
Caraças, como ele é sexy! Pensou Jessica, a sua cabeça ficou repentinamente e ligeiramente incoerente.
Angela não estava muito mais controlada. Gostava que não tivéssemos comido. Uau. Apenas. Uau.
Agora, por que é que eu não conseguia fazer aquilo com a Bella?
- Ah… claro que não. - Concordou Jessica.
A Angela franziu as sobrancelhas. - Hum, na verdade, Bella, nós já comemos enquanto estávamos à espera. - Admitiu. - Desculpa.
O quê? Cala-te! Reclamou Jess para si mesma.
Bella encolheu os ombros, casualmente. Tão calma. Definitivamente em choque. – Tudo bem, não tenho fome.
- Julgo que devias comer alguma coisa. - Discordei. Ela precisava de açúcar na corrente sanguínea, apesar de cheirar doce o suficiente assim, pensei ironicamente. O pavor ia chegar momentaneamente, e um estômago vazio não ia ajudar. Ela desmaiava facilmente, como eu sabia por experiência.
Estas raparigas não estariam em qualquer perigo se fossem directamente para casa. O perigo não perseguia cada passo delas.
E eu preferia estar sozinho com a Bella, desde que ela quisesse ficar sozinha comigo.
- Importas-te que eu leve a Bella a casa esta noite? – Perguntei a Jessica antes que Bella pudesse reagir. – Deste modo, não terão de esperar enquanto ela come.
- Hum, suponho que não há problema… - Jessica olhou seriamente para Bella, à espera de algum sinal de que era isso que ela queria.
Eu quero ficar… mas provavelmente ela quere-o só para si. Quem não ia querer? Pensou Jess. No mesmo momento, ela viu Bella a piscar o olho.
A Bella piscou-lhe o olho?
- Está bem! – Disse Angela rapidamente, na pressa de ficar fora do caminho se era isso o que Bella queria. E parecia que ela queria isso. – Até amanhã, Bella… Edward. - Ela esforçou-se para dizer o meu nome num tom casual. Depois agarrou a mão de Jessica e começou a rebocá-la para longe.
Eu ia ter de arranjar uma maneira de agradecer a Angela por isto.
O carro de Jessica estava perto de um círculo de luz clara feita por uma lâmpada de rua.
Bella olhou para elas cuidadosamente, uma pequena ruga de preocupação entre os seus olhos, até que entraram no carro. Portanto ela deve estar bem consciente do perigo que passou. Jessica acenou enquanto conduzia, e Bella acenou de volta. Quando o carro desapareceu ela respirou fundo e virou-se para olhar para mim.
- A sério, não tenho fome. – Disse.
Por que é que ela tinha esperado que elas se fossem embora para falar? Ela queria realmente estar sozinha comigo, mesmo agora, depois de ter testemunhado a minha raiva homicida?
Quer fosse esse o caso ou não, ela ia comer alguma coisa. – Faz-me a vontade. – Disse-lhe.
Agarrei a porta do restaurante para que ela passasse e esperei. Ela suspirou, e passou.
Caminhei ao lado dela até à recepção, onde estava a recepcionista à espera. Bella ainda parecia inteiramente calma. Eu queria tocar-lhe na mão, na testa, para ver a sua temperatura. Mas a minha mão fria iria assustá-la, tal como aconteceu antes.
Oh, ena. A voz mental um tanto alta da empregada irrompeu na minha consciência. Ena, ena.
Parecia que hoje era a minha noite de virar a cabeça das pessoas. Ou eu só estava a reparar mais nisso por que queria tanto que a Bella me visse daquela maneira? Nós sempre fomos atraentes para a nossa presa. Nunca pensei muito sobre isso antes. Geralmente o medo vinha um pouco depois da atracção inicial…
- Tem uma mesa para dois? - Perguntei, visto que a empregada não falava.
- Oh, hum, sim. Bem-vindos ao La Bella Itália. - Mmm! Que voz! - Porque não me acompanham? - Os seus pensamentos eram calculistas.
Talvez ela seja prima dele. Não pode ser irmã dele, não são nada parecidos. Mas família de certeza. Ele não pode estar com ela.
Os olhos humanos eram nublados, não viam nada claramente. Como podia esta mulher de mente fraca achar os meus encantos físicos, (uma armadilha para a presa), tão atraentes, e mesmo assim não ser capaz de ver a suave perfeição da rapariga ao meu lado?
A empregada encaminhou-nos para uma mesa de tamanho familiar na parte mais cheia do restaurante. Será que lhe posso dar o meu número enquanto ela está ali…? - Pensou.
Tirei uma nota do meu bolso de trás. As pessoas eram constantemente cooperativas quando se tratava de dinheiro.
Bella já se estava a sentar no lugar que a empregada lhe tinha indicado. Eu abanei a cabeça, e ela hesitou, inclinando a cabeça para lado com curiosidade. Sim, ela ia estar muito curiosa esta noite. Um sítio no meio da multidão não era um bom lugar para ter esta conversa.
- Talvez num local um pouco mais íntimo? - Pedi à empregada, dando-lhe o dinheiro. Os olhos dela abriram-se surpreendidos, e depois semicerram-se enquanto a sua mão se enrolou na gorjeta.
- Com certeza.
Ela deu uma olhadela à nota enquanto nos guiava à volta de uma parede separadora.
Cinquenta dólares por uma mesa melhor? Rico, também. Isso faz sentido, aposto que o casaco dele custou mais do que o meu salário inteiro. Raios. Por que é que ele quer privacidade com ela?
Ela ofereceu-nos uma mesa num canto calmo do restaurante onde ninguém seria capaz de nos ver. Ver as reacções da Bella ao quer que fosse que eu lhe fosse dizer. Eu não fazia nenhuma ideia do que é que ela iria querer de mim esta noite. Ou do que eu lhe iria dar.
Quanto é que ela tinha adivinhado? Que explicação é que ela contou a si mesma sobre os acontecimentos de hoje à noite?
- O que lhe parece? – Perguntou a empregada.
- Perfeito. – Disse-lhe, sentindo-me levemente irritado pela sua má atitude para com Bella. Sorri-lhe abertamente, e mostrei os meus dentes. Deixá-la ver-me claramente.
Uau. – Hum, a empregada que irá servir-vos não demorará. - Ele não pode ser real. Eu devo estar a dormir. Talvez ele vá desaparecer… talvez eu escreva o meu número no prato dele com ketchup… Ela saiu, e caminhou levemente, ligeiramente de lado.
Estranho. Ela ainda não estava assustada. De repente lembrei-me de Emmett a provocar-me no refeitório, há várias semanas atrás. "Aposto que eu a tinha assustado mais que tu".
Eu estava a perder a prática?
- Não devias mesmo fazer isso às pessoas. – Bella interrompeu os meus pensamentos com um tom de desaprovação. – Não é muito justo.
Eu olhei para a expressão de crítica dela. O que é que ela queria dizer? Eu não tinha assustado a empregada nenhum um bocado, apesar das minhas intenções. – Fazer o quê?
- Deslumbrá-las dessa forma. Neste preciso momento, ela deve estar na cozinha a respirar de forma ofegante.
Hum, Bella estava quase certa.
A empregada estava apenas semi-coerente de momento, a descrever à sua colega os meus atributos, incorrectamente.
- Oh, vá lá. – Repreendeu-me Bella quando não respondi imediatamente. – Tu deves ter noção do efeito que exerces nas pessoas.
- Eu deslumbro as pessoas? - Esta era uma maneira interessante de pôr as coisas. Era certa o suficiente para a situação desta noite. Perguntava-me porquê a diferença…
- Ainda não reparaste? - Perguntou, ainda crítica. – Julgas que todos conseguem alcançar o que pretendem com tanta facilidade?
- E a ti, deslumbro-te? – Verbalizei a minha curiosidade impulsivamente, e depois as palavras já tinham sido ditas, e era tarde de mais para me arrepender.
Mas antes que eu tivesse tido tempo de me arrepender profundamente por ter pronunciado aquelas palavras, ela respondeu, “Frequentemente.” E as suas bochechas ficaram numa tonalidade de rosa pálido.
Eu deslumbrava-a.
O meu coração silencioso inchou com uma esperança mais intensa do já tinha sentido antes.
- Olá. - Alguém disse, a empregada de mesa, a apresentar-se. Os seus pensamentos eram altos e mais explícitos do que os da empregada, mas eu ignorei-a. Olhei para a cara de Bella em vez de ouvir, assisti ao sangue espalhar-se sob a sua pele, e reparei não em como aquilo fazia minha garganta arder, mas como aquilo dava brilho ao seu rosto, como aquilo espantava a palidez da sua pele…
A empregada de mesa estava à espera do meu pedido. Ah, ela tinha perguntado sobre as bebidas. Eu continuei a olhar para Bella, e a empregada de mesa virou-se a contragosto para olhar para ela também.
- Eu quero uma Coca-Cola? - Disse Bella, como se pedisse aprovação.
- São duas Coca-Colas. - Completei. Sede, sede normal de humanos era um sinal de choque. Eu ia-me certificar que ela ficava com o açúcar extra do refrigerante no seu sistema.
Mas ela parecia saudável. Mais que saudável. Ela parecia radiante.
- O que foi? – Perguntou. Possivelmente a imaginar por que é que eu olhava para ela. Eu mal tinha notado que a empregada tinha saído.
- Como te sentes? - Perguntei.
Ela piscou os olhos, surpreendida com a pergunta. – Estou óptima.
- Não te sentes tonta, enjoada, com frio?
Agora estava ainda mais confusa. – Devia sentir?
- Bem, na verdade estou à espera que entres em estado de choque. - Esbocei um sorriso, à espera da negação. Ela não ia querer que cuidassem dela.
Levou um minuto para me responder. Os seus olhos estavam ligeiramente desfocados. Por vezes ela ficava assim, quando eu lhe sorria. Estaria ela… deslumbrada?
Eu adorava acreditar nisso.
- Não creio que isso vá acontecer. Sempre fui bastante boa a reprimir coisas desagradáveis. - Respondeu, um bocado sem ar.
Será que ela tinha tido muita experiência com coisas desagradáveis? Seria a sua vida sempre assim tão arriscada?
- Mesmo assim. – Disse-lhe. – Ficarei mais descansado quando ingerires algum açúcar e comida.
A empregada voltou com os refrigerantes e com um cesto de pão. Deixou tudo à minha frente e perguntou pelo meu pedido, tentando olhar-me nos olhos durante o processo. Eu indiquei-lhe que devia atender Bella, e depois voltei a ignorá-la. Ela tinha uma mente vulgar.
- Hum… - Bella deu uma rápida olhadela no menu. – Quero o ravioli de cogumelos.
A empregada voltou-se rapidamente para mim. – E o senhor?
- Eu não quero nada.
Bella fez uma ligeira careta. Hum. Ela deve ter reparado que eu nunca ingeria alimentos. Ela reparava em tudo. E eu esquecia-me sempre de ser cuidadoso quando estava com ela.
Esperei até que estivéssemos sozinhos novamente.
- Bebe. - Insisti.
Fiquei surpreendido quando ela obedeceu imediatamente sem nenhuma objecção. Bebeu até que a garrafa estivesse totalmente vazia, e depois empurrei o meu copo na direcção dela, um pouco preocupado. Sede ou choque?
Ela bebeu mais um bocado, e depois arrepiou-se.
- Tens frio?
- É só da Coca-Cola. - Disse, mas estremeceu novamente, os seus lábios tremeram como se os dentes estivessem prestes a tiritar de frio.
A linda blusa que ela usava parecia demasiado fina para a proteger adequadamente, parecia uma segunda pele, quase tão frágil como a primeira. Ela era tão frágil, tão mortal.
- Não tens um casaco?
- Tenho! – Olhou à volta de si mesma, meio perplexa. – Oh, deixei-o no carro da Jessica.
Tirei o meu casaco, desejando que o gesto não fosse estragado pela minha temperatura corporal. Era bom se fosse capaz de lhe oferecer um casaco aquecido. Ela olhou para mim, as suas bochechas a corar novamente. O que é que ela estaria a pensar agora?
Passei-lhe o casaco por cima da mesa, e ela vestiu-o de uma vez, e tremeu novamente.
Sim, era óptimo se fosse quente.
- Obrigada. - Disse. Ela respirou fundo e depois puxou as longas mangas para liberar as mãos. Respirou fundo novamente.
Estaria a noite finalmente a assentar? A cor dela ainda estava boa, a sua pele estava num tom de rosa pálido em contraste com o azul-escuro da sua camisa.
- Essa cor azul condiz maravilhosamente com a tua pele. – Elogiei-a. Apenas a ser honesto.
Ela corou, enaltecendo o efeito.
Ela parecia bem, mas não valia a pena arriscar. Empurrei o cestinho de pão na direcção dela.
- A sério. - Reclamou, a imaginar os meus motivos. - Não vou entrar em estado de choque.
- Mas devias. A uma pessoa normal era isso que aconteceria. Nem sequer pareces abalada. – Olhei para ela, um olhar reprovador, a imaginar por que é que ela não podia ser normal, e depois perguntei-me se iria querer realmente que ela fosse normal.
- Sinto-me muito protegida na tua companhia. - Disse, e os olhos dela, novamente, cheios de confiança. Confiança que eu não merecia.
Os seus instintos estavam todos errados, invertidos. Devia ser esse o problema. Ela não reconhecia o perigo da maneira como um ser humano era capaz. Ela tinha uma reacção oposta. Em vez de correr, ela hesitava, atirava-se ao que a deveria assustar…
Como é que eu a podia proteger de mim mesmo quando nenhum de nós dois queria isso?
- Isto é mais complicado do que eu imaginara. - Murmurei.
Eu conseguia vê-la a passar as minhas palavras na sua cabeça, e perguntei-me o que é que ela teria feito com elas. Agarrou num bocado de pão e começou a comer sem prestar muita atenção. Mastigou por um momento, e depois inclinou a cabeça para um lado, pensativa.
- Normalmente, estás mais bem-disposto quando os teus olhos estão assim claros. - Disse num tom casual.
A sua observação, dita de forma tão directa deixou-me atordoado. – O quê?
- Estás sempre mais rabugento quando os teus olhos estão negros. – Agora já estava à espera. – Tenho uma teoria a esse respeito. - Adicionou calmamente.
Então ela tinha arranjado a sua própria explicação. É claro que tinha. Senti um pavor profundo quando imaginei o quão perto da verdade ela tinha chegado.
- Mais teorias?
- Mm-hm. – Mastigava depois de outra dentava, totalmente relaxada. Como se não fosse discutir as características de um monstro com o próprio monstro.
- Gostaria que desta vez fosses mais criativa. - Menti quando ela não continuou. O que eu realmente esperava era que ela estivesse errada, a quilómetros de distância da verdade. – Ou continuas a inspirar-te nos livros de banda desenhada?
- Bem, não, não me baseei num livro de banda desenhada. - Disse, um bocado envergonhada. – Mas também não a elaborei sozinha.
- E então? - Perguntei entre dentes.
É claro que ela não iria falar tão calmamente se estivesse prestes a gritar.
Enquanto ela hesitava, a morder o lábio, a empregada de mesa apareceu com a comida de Bella. Eu prestei pouca atenção à empregada enquanto punha o prato à frente de Bella, e depois perguntou-me se eu desejava algo.
Eu neguei, mas pedi outra coca. A empregada não tinha reparado nos copos vazios. Ela agarrou-os e levou-os.
- O que estavas a dizer? - Perguntei ansiosamente logo que ficámos a sós novamente.
- Digo-te no carro. - Disse em voz baixa. Ah, isto ia ser mau. Ela não estava disposta a falar das suas suposições à frente de outras pessoas. - Se… - Irrompeu repentinamente.
- Há condições? - Eu estava tão tenso que quase rosnei as palavras.
- Tenho, de facto, algumas questões a colocar, evidentemente.
- Evidentemente. - Concordei, com um tom de voz seco.
As suas perguntas provavelmente iam ser o suficiente para que eu soubesse que direcção é que os seus pensamentos estavam a seguir. Mas como é que eu lhes iria responder? Com mentiras responsáveis? Ou assombrá-la-ia com a verdade? Ou não diria nada, incapaz de decidir?
Continuámos sentados em silêncio enquanto a empregada reabastecia o copo de refrigerante.
- Bem, continua. – Disse-lhe, com o queixo rígido, quando ela desapareceu.
- Porque estás em Port Angeles?
Essa era uma pergunta demasiado fácil para ela. A pergunta não me indicava nada, enquanto a minha resposta, se verdadeira, indicaria muito, muito mesmo. Deixa que ela revele algo primeiro.
- A seguinte. - Disse.
- Mas esta é a mais fácil!
- A seguinte. - Repeti.
Ela estava frustrada pela minha rejeição. Desviou olhos de mim e olhou para baixo, para a sua comida.
Lentamente, pensativa, ela deu uma dentada e mastigou com vontade. Fez tudo descer com mais Coca-Cola e então finalmente olhou para mim. Os olhos dela estavam estreitos, cheios de suspeita.
- Então, muito bem. - Disse. – Digamos, hipoteticamente, como é evidente, que… alguém podia adivinhar os pensamentos das pessoas, ler a mente, tu sabes. Com algumas excepções.
Podia ser pior.
Isto explicava aquele meio sorriso no carro. Ela era rápida, nunca ninguém tinha adivinhado este meu poder. Excepto Carlisle, e tinha sido bastante óbvio, no início, quando eu respondia a todos os seus pensamentos como se ele estivesse a falar comigo. Ele tinha entendido o meu poder antes de mim…
Esta pergunta não era assim tão má. Apesar de ser evidente que ela sabia que havia algo de errado comigo, não era tão mau quanto podia ser. Leitura de mentes não era, afinal de contas, uma faceta do “estigma” vampírico. Continuei com a sua hipótese.
- Com apenas uma excepção. – Corrigi-a. – Hipoteticamente
Ela esforçou-se para não sorrir, a minha vaga honestidade tinha-a agradado. – Muito bem, que seja então uma excepção. Como é que isso funciona? Quais são as limitações? Como é que essa pessoa encontraria outra exactamente no momento certo? Como poderia ele saber que ela estava em apuros?
- Hipoteticamente?
- Claro. – Os lábios dela torceram-se, e os seus olhos castanhos estavam ansiosos.
- Bem. - Hesitei. – Se… essa pessoa…
- Chamemos-lhe Joe. - Sugeriu.
Eu tive que sorrir dado o entusiasmo dela. Ela achava mesmo que a verdade seria uma coisa boa? Se os meus segredos fossem coisas agradáveis, por que é que eu a manteria afastada deles?
- Joe, então. - Concordei. – Se o Joe estivesse a prestar atenção, o sentido de oportunidade não teria tido de ser assim tão exacto. – Abanei a minha cabeça e reprimi um arrepio quando me lembrei o quão perto eu estive de chegar demasiado tarde hoje. – Só tu poderias arranjar sarilhos numa cidade assim tão pequena. Terias arrasado as estatísticas referentes à taça de criminalidade da cidade por uma década, sabes.
Os lábios dela descaíram um bocado nas pontas e depois disse: - Estávamos a referir-nos a um caso hipotético.
Eu ri-me da irritação dela.
Os lábios dela, a pele dela… pareciam tão suaves… Eu queria tocá-los. Queria empurrar a sua sobrancelha franzida para cima com a ponta dos meus dedos. Impossível. A minha pele seria um repelente para ela.
- Pois estávamos. - Disse, voltando ao nosso assunto antes de eu entrar em depressão. – Chamamos-te Jane?
Ela inclinou-se sobre a mesa na minha direcção, toda a irritação e humor desapareceram dos seus olhos arregalados.
- Como é que sabias? - Perguntou, a voz dela era baixa e intensa.
Devia dizer-lhe a verdade? E, se dissesse, que parte?
Eu queria contar-lhe. Queria merecer a confiança que ainda conseguia ver na sua cara.
- Sabes que podes confiar em mim. - Sussurrou, e estendeu a mão para frente como se fosse tocar nas minhas onde estavam, em cima da mesa vazia à minha frente.
Eu tirei-as de alcance, odiando a ideia da reacção dela à minha pele fria e pétrea, e ela deixou-a cair sobre a mesa.
Eu sabia que podia confiar nela para guardar segredo. Ela era inteiramente confiável, até o fim. Mas eu não podia garantir que não ficasse horrorizada. Ela devia ficar horrorizada. A verdade era horrível.
- Não sei se ainda tenho alternativa. - Murmurei. Lembrei-me de uma vez a ter provocado ao dizer que ela tinha uma excepcional falta de atenção Tinha-a ofendido, se tivesse julgado bem as suas expressões. Bem, pelo menos tive direito a essa injustiça. – Estava enganado. Tu és muito mais observadora do que eu julgava.
- Pensava que tinhas sempre razão. - Disse, a sorrir enquanto me provocava.
- Costumava ter. - Eu costumava saber o que fazia. Costumava ter sempre a certeza do meu caminho. Agora era tudo um caos.
Mesmo assim, eu não trocaria nada. Não queria que a vida fizesse sentido. Não se o caos significasse que eu podia estar com a Bella.
- Também me enganei a teu respeito acerca de outro aspecto. - Continuei, esclarecendo as coisas noutro ponto. – Tu não atrais acidentes, esta definição não é suficientemente abrangente. Tu atrais sarilhos. Se houver uma situação de perigo num raio de quinze quilómetros, acabará invariavelmente por te envolver. - Porquê ela? O que é que ela tinha feito para merecer tudo isto?
O rosto de Bella estava sério novamente. – E tu inseres-te nessa categoria?
A honestidade era mais importante em relação a esta questão do que qualquer outra coisa. – Inequivocamente.
Os olhos dela ficaram estreitos outra vez. Não com suspeita, mas estranhamente preocupados. Ela esticou a mão pela mesa novamente, devagar e deliberadamente. Afastei as minhas mãos alguns centímetros das dela, mas ela ignorou o movimento, determinada a tocar-me. Sustive a respiração, agora não por causa do seu cheiro, mas por causa da súbita e irresistível tensão. Medo. A minha pele ia deixá-la enojada. Ela ia fugir.
Ela roçou a ponta dos dedos levemente nas costas da minha mão. O calor do seu toque gentil e disposto não era nada do que eu já tinha sentido antes. Era quase puro prazer. Teria sido, se não fosse pelo meu medo. Observei o rosto dela enquanto sentia o frio duro da minha pele, ainda incapaz de respirar.
Um meio sorriso apareceu nos cantos dos seus lábios.
- Obrigada. - Disse, a olhar-me intensamente. – Já é a segunda vez.
Os seus dedos macios ficaram na minha mão como se fosse agradável estar ali.
Respondi-lhe o mais casualmente possível. – Não vamos experimentar a terceira, de acordo?
Ela fez uma careta, mas concordou.
Tirei a minha mão da dela. Por mais espantoso que o seu toque fosse, eu não ia esperar que a magia da sua tolerância passasse e se transformasse em repulsa. Escondi as mãos debaixo da mesa.
Li os olhos dela. Apesar de a sua mente estar silenciosa, eu conseguia ver a confiança e a curiosidade. Percebi naquele momento que eu queria responder às perguntas dela. Não por que lhe devia isso. Não por que queria que ela confiasse em mim.
Eu queria que ela me conhecesse.
- Segui-te até Port Angeles. – Disse-lhe, as palavras saíram demasiado rápido para que eu as editasse. Eu sabia do perigo da verdade, do risco que corria. A qualquer momento, a sua calma fora do normal podia transformar-se em histeria. Contrariamente, saber isso apenas fez com que eu falasse mais rápido. – Nunca tentei manter viva uma pessoa em especial, e é muito mais problemático do que eu imaginara, mas provavelmente é por essa pessoa seres tu. Mas pessoas normais parecem conseguir chegar ao fim do dia sem tantas catástrofes.
Observei-a, à espera.
Ela sorriu. Os lábios dela curvaram-se nas pontas, e os olhos cor de chocolate aqueceram.
Eu tinha acabado de admitir que a tinha seguido, e ela estava a sorrir.
- Já te ocorreu a ideia de que talvez tivesse chegado a minha vez naquela primeira ocasião com a carrinha, e tu tens estado a interferir no destino? - Perguntou.
- Não foi essa a primeira vez. – Disse-lhe, a olhar para a toalha de mesa avermelhada, os meus ombros curvados com vergonha. As minhas barreiras tinham caído, a verdade ia sair de qualquer maneira. – A tua vez chegou quando te conheci.
Era verdade, e enervava-me. Eu tinha sido posicionado na vida dela como a lâmina de uma guilhotina. Era como se ela tivesse sido marcada para morrer por um destino cruel e injusto.
Eu queria que alguma coisa, alguém, fosse responsável por isto, para que eu tivesse de lutar contra algo concreto. Alguma coisa, qualquer coisa para destruir, para que ela pudesse ficar a salvo.
Bella estava muito quieta, a sua respiração tinha acelerado.
Olhei para cima, para ela, sabendo que ia finalmente ver o medo que estava à espera. Eu não tinha acabado de admitir o quão perto estive de a matar? Mais perto do que a carrinha que ficou a meros centímetros de a esmagar. E mesmo assim, o seu rosto parecia calmo, os olhos dela ainda estavam semicerrados com preocupação.
- Lembras-te? - Ela tinha que se lembrar daquilo.
- Lembro. - Disse, com a voz calma e grave. Os olhos dela estavam cheios de consciência.
Ela sabia. Ela sabia que eu a quis matar.
Onde é que estavam os gritos?
- E, no entanto aqui estás tu sentada. – Disse-lhe, apontando a inerente contradição.
- Sim, aqui estou eu sentada… por tua causa. - A expressão dela alterou-se, tornou-se curiosa, enquanto mudou subtilmente de assunto – Porque, de alguma forma tu sabias como encontrar-me hoje…
Sem esperanças, forcei mais uma vez a barreira que protegia os pensamentos dela, desesperado por entender. Não tinha lógica. Como é que ela se podia sequer importar com o resto quando a verdade estava ali sobre a mesa?
Ela esperou, apenas curiosa. A sua pele estava pálida, o que era natural nela, mas ainda assim preocupava-me. O seu jantar permanecia intocado à frente dela. Se eu continuasse a contar-lhe demasiado, ela ia precisar de protecção quando o choque chegasse.
Disse as minhas condições. – Tu comes e eu falo.
Ela processou aquilo durante meio segundo e depois comeu um bocado com uma velocidade que parecia destruir a sua calma. Ela estava mais ansiosa pela minha resposta do que os seus olhos demonstravam.
- É mais difícil do que devia ser, localizar-te. – Disse-lhe. – Normalmente consigo encontrar uma pessoa com muita facilidade quando já auscultei a sua mente antes.
Observei o rosto dela com cuidado quando disse aquilo. Adivinhar era uma coisa, ter a confirmação era outra.
Ela não se mexia, tinha os olhos arregalados. Senti os meus dentes a ranger enquanto esperava que ela entrasse em pânico.
Mas ela apenas piscou os olhos uma vez, engolindo sonoramente, e rapidamente mordeu mais um pedaço. Ela queria que eu continuasse.
- Andava a vigiar a Jessica. - Continuei. – Sem grandes cuidados. Como já referi, só tu poderias arranjar sarilhos em Port Angeles. - Não resisti ao comentário. Será que ela sabia que as outras vidas humanas não estavam tão marcadas por experiências de morte iminente, ou ela achava que era normal? Ela era a coisa mais fora do normal que eu já tinha encontrado. – E a princípio, não reparei que partiras sozinha. Então, quando me apercebi de que já não estavas com elas, fui à tua procura à livraria que eu vira na cabeça dela. Percebi que não tinhas entrado e te deslocavas para sul… e sabia que terias de voltar para trás em breve. Assim, estava apenas à tua espera, perscrutando aleatoriamente os pensamentos das pessoas que passavam na rua, para ver se alguém reparara em ti, de modo a poder saber onde estavas. Não tinha motivos para estar preocupado… mas estava estranhamente ansioso. – A minha respiração ficou mais rápida quando me lembrei da sensação de pânico. O cheiro dela alcançou a minha garganta e eu estava contente. Era uma dor que significava que ela estava viva. Enquanto me queimasse, ela estava a salvo.
- Comecei a andar às voltas, ainda… à escuta. – Eu esperei que a palavra fizesse sentido para ela. Isto provavelmente era confuso. – O Sol estava finalmente a pôr-se e eu prestes a sair do carro e a seguir-te a pé. Então…
Enquanto a memória me preenchia, perfeitamente clara e tão vívida como se eu estivesse naquele momento novamente, senti a mesma fúria assassina a correr pelo meu corpo, prendendo-a em gelo.
Eu queria-o morto. Eu precisava dele morto. O meu maxilar estava cerrado enquanto me concentrava em manter-me no lugar. Bella ainda precisava de mim. Era isso que importava.
- Então o quê? – Sussurrou. Os seus olhos escuros arregalados.
- Ouvi o que eles estavam a pensar. - Disse entre dentes, incapaz de fazer com que as palavras saíssem sem parecerem um rosnado. – Vi o teu rosto na mente deles.
Eu mal conseguia resistir à vontade de matar. Eu ainda sabia precisamente onde o encontrar. Os pensamentos negros deles passeavam pela noite, como se me chamassem…
Cobri a minha cara, pois sabia que minha expressão era a de um monstro, um caçador, um assassino. Fixei a imagem dela por detrás dos meus olhos para me controlar, concentrando-me apenas no seu rosto. A delicada moldura óssea, a fina camada da sua pele pálida, como seda esticada por cima de um vidro, incrivelmente macia, fina e fácil de estilhaçar. Ela era demasiado vulnerável para este mundo. Ela precisava de um protector. E, devido a uma volta estranha do destino, eu era a coisa mais próxima que estava disponível.
Tentei explicar a minha reacção violenta para que ela pudesse entender.
- Foi muito… difícil para mim. Não imaginas quanto… simplesmente levar-te dali e deixá-los… vivos. - Suspirei. – Podia ter-te deixado ir com a Jessica e a Angela, mas receava que se me deixasses sozinho, eu fosse à procura deles.
Pela segunda vez esta noite, eu confessei a intenção de assassinato. Pelo menos esta podia ser perdoável.
Ela estava quieta enquanto eu lutava para me tentar controlar. Ouvi as batidas do coração dela. O ritmo era irregular, mas acalmou-se conforme o tempo passava e agora estava estável novamente. A respiração dela também estava lenta e estável.
Eu estava demasiado próximo do limite. Eu precisava de a levar para casa antes de…
Eu ia matá-lo, então? Ia-me tornar num monstro outra vez quando ela confiava em mim? Será que havia alguma forma de me deter?
Ela tinha-me prometido contar a sua nova teoria quando estivéssemos sozinhos. Será que eu ia querer ouvir? Estava ansioso por isso, mas será que a recompensa pela minha curiosidade seria pior do que não saber?
De qualquer das maneiras, ela já deve ter tido a verdade suficiente para uma noite.
Olhei para ela outra vez, e o seu rosto estava mais pálido do que antes, mas composto.
- Estás pronta para ir para casa? – Perguntei.
- Estou pronta para me ir embora. - Disse, escolhendo as palavras com cuidado, como se um simples ‘sim’ não expressasse exactamente o que ela queria dizer.
Frustrante.
A empregada de mesa voltou. Ela tinha ouvido a última frase de Bella enquanto caminhava para o outro lado da sala, a pensar no que mais é que me poderia oferecer. Eu queria revirar os olhos a algumas das ofertas que ela tinha em mente.
- Está tudo bem? – Perguntou-me.
- Já pode trazer-nos a conta, obrigado. – Disse-lhe, enquanto olhava para Bella.
A respiração da empregada de mesa acelerou, e ela ficou momentaneamente, usando a frase de Bella, deslumbrada com a minha voz.
Num breve momento de percepção, ao ouvir como a minha voz soava na mente desta humana, eu percebi por que é que eu parecia estar a atrair tanta atenção esta noite, ao contrário do medo habitual.
Era por causa de Bella. Como eu estava a tentar tanto ser seguro para ela, ser menos assustador, ser humano, eu tinha perdido o meu “toque”. Os outros humanos agora viam beleza, porque o meu horror inato estava cuidadosamente sob controlo.
Olhei para a empregada, à espera que ela se recuperasse. Era um bocado engraçado, agora que eu sabia o motivo.
- Com certeza. – Gaguejou. – Aqui tem.
Ela estendeu-me a pasta com a conta, a pensar no cartão que tinha deixado por baixo do recibo. Um cartão com seu nome e telefone.
Sim, era realmente engraçado.
Eu já tinha o dinheiro pronto. Devolvi imediatamente a pasta, para que ela não perdesse tempo à espera de um telefonema que nunca ia acontecer.
- Não é necessário dar-me troco. - Disse, à espera que o tamanho da gorjeta compensasse o seu desapontamento.
Levantei-me, e Bella seguiu-me imediatamente. Eu queria oferecer-lhe a minha mão, mas pensei que talvez estivesse a desafiar minha sorte um pouco demais por uma noite. Agradeci à empregada, sem que os meus olhos deixassem a cara de Bella. Ela também parecia estar a achar aquilo algo engraçado.
Saímos dali, e eu caminhava o mais próximo dela que me atrevia. Perto o suficiente para que o calor do corpo dela fosse como um toque físico contra o lado esquerdo do meu corpo. Enquanto eu lhe segurava a porta, ela suspirou ligeiramente, e eu perguntei-me o que a teria deixado triste. Encarei o olhar dela, prestes a perguntar, quando ela de repente olhou para o chão, parecendo envergonhada. Isso deixou-me ainda mais curioso, ainda que relutante em perguntar. O silêncio entre nós continuou enquanto eu lhe abria a porta do carro para que entrasse.
Liguei o aquecedor, o tempo mais quente tinha de repente terminado. O frio do carro devia ser desconfortável para ela. Encolheu-se no meu casaco, um pequeno sorriso nos seus lábios.
Fiquei à espera, adiando a conversa até que as luzes do restaurante desaparecessem. Isso fez-me sentir ainda mais a sós com ela.
Seria aquilo a coisa certa a fazer? Agora que eu estava concentrado apenas nela, o carro parecia mais pequeno. O aroma dela dançava lá dentro com a corrente de ar do aquecedor, intensificando-se e aumentando. Cresceu com a sua própria força, como se fosse uma entidade própria dentro do carro. Uma presença que exigia ser vista.
E tinha sido, eu ardi. No entanto, a sensação era aceitável. Parecia estranhamente apropriada para mim. Tinha-me sido dado tanto esta noite, mais do que eu esperava. E aqui estava ela, ainda ao meu lado por vontade própria. Eu devia-lhe algo por aquilo. Um sacrifício, uma oferta.
Agora, se eu simplesmente pudesse manter as coisas daquela forma. Apenas a sensação ardente na minha garganta, e mais nada… Mas o veneno encheu-me a boca, e os meus músculos ficaram tensos em antecipação, como se eu estivesse a caçar…
Eu precisava manter tais pensamentos longe da minha cabeça. E eu sabia o que me iria distrair.
- Agora. – Disse-lhe, a temer a sua resposta e distraindo-me da sensação de queimadura. – É a tua vez.

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