sábado, 15 de agosto de 2009

Capítulo 2 - Livro aberto

2. Livro Aberto


Encostei as costas contra o banco fofo de neve, deixando o pó seco refazer-se à volta do meu peso. A minha pele tinha arrefecido para igualar-se ao ar à minha volta, e os pequenos pedaços de gelo pareciam veludo de baixo da minha pele.
O céu acima de mim estava limpo, brilhante com estrelas, ficando azul em algumas partes, e amarelo noutras. As estrelas apareceram majestosamente, em formas redondas contra o universo negro - uma vista maravilhosa. Perfeitamente bonita. Ou melhor, teria sido perfeitamente. Teria sido, se eu a estivesse realmente a ver.
Eu não estava a melhorar nada, já se tinham passado seis dias, há seis dias que eu estava escondido neste deserto vazio Denali, mas não estava nem perto da liberdade desde o primeiro momento em que senti o seu perfume.
Quando olhei para o céu estrelado, era como se tivesse uma obstrução entre meus olhos e a beleza dele. A obstrução era um rosto, um rosto humano pouco notável, mas parecia que não o conseguia banir da minha mente.
Ouvi os pensamentos a aproximarem-se antes de ouvir os passos que os acompanhavam. O som do movimento era apenas um desfalecido suspiro contra o pó.
Não estava surpreendido que a Tanya me tivesse seguido até aqui. Eu sabia que ela esteve a reflectir sobre esta próxima conversa nos últimos dias, adiando até que estivesse exactamente certa do que queria dizer.
Apareceu a uns 54 metros, a pular até a ponta de uma rocha escura à vista, balançando-se nas pontas dos pés A pele de Tanya estava prateada à luz das estrelas, os seus cabelos louros brilhavam palidamente, quase rosa com madeixas avermelhadas. Os seus olhos dourados brilharam rapidamente quando olhou para mim, meio enterrada na neve, e os seus lábios esticaram-se lentamente formando um sorriso.
Seria perfeita. Se eu conseguisse realmente vê-la. Suspirei.
Ela agachou-se até a ponta da rocha, as pontas dos dedos tocaram na rocha, e o corpo dela preparou-se.
Bola de neve, pensou.
Lançou-se no ar, a sua forma tornou-se escura, uma sombra giratória à medida que ela girava entre mim e as estrelas. Ela curvou-se e ficou uma bola, enquanto se lançava para o banco de neve ao meu lado.
Uma grande quantidade de neve caiu em cima de mim. As estrelas ficaram pretas, e eu estava enterrado, coberto de cristais de gelo.
Suspirei de novo, mas não me mexi para me desenterrar. A escuridão abaixo da neve não podia piorar nem melhorar a visão. Eu ainda via o mesmo rosto.
“Edward?”
E depois a neve estava a voar outra vez, assim que a Tanya me desenterrou rapidamente. Limpou o pó do meu rosto imóvel, e não olhava totalmente para os meus olhos.
“Desculpa.” Murmurou. “Foi uma piada.”
“Eu sei. Foi engraçado.”
A boca dela virou-se para baixo.
“ A Irina e a Kate disseram que te devia deixar em paz. Elas acham que te estou a incomodar.”
“Claro que não,” Assegurei-lhe “Pelo contrário, sou eu quem está a ser rude -abominavelmente rude. Lamento imenso.”
Vais para casa, não é? Pensou.
“Eu ainda… não me decidi… totalmente.”
Mas não vais ficar aqui. O seu pensamento agora era melancólico, triste.
“Não. Isto não parece estar… a ajudar.”
Ela fez uma careta. “É por minha causa, não é?”
“Claro que não,” Menti gentilmente.
Não sejas cavalheiro.
Sorri.
Faço-te sentir desconfortável, ela acusou.
“Não.”
Ela levantou uma sobrancelha, a sua expressão estava tão descrente que tive que me rir. Um curto riso, seguido por outro suspiro.
“Está bem,” eu admiti. “Um bocado.”
Ela também suspirou e colocou o queixo sob as suas mãos. Os seus pensamentos estavam mortificados.
“Tu és mil vezes mais amável do que as estrelas, Tanya. É claro, tu estás consciente disso. Não deixes que a minha teimosia estrague a tua confiança.” Ri-me com a impossibilidade disso.
“Não estou habituada à rejeição,” queixou-se, com o seu lábio inferior para fora num atraente beicinho.
“Claro que não,” Concordei, tentando sem muito sucesso bloquear os seus pensamentos enquanto se aprofundavam entre as suas milhares conquistas. Na sua maioria, Tanya preferia os homens humanos - eles eram muito mais populares para uma única coisa, com a vantagem de serem suaves e quentes.
Ao contrário de Carlisle, a Tanya e as suas irmãs descobriram as suas consciências lentamente. No final, foi o afecto pelos homens humanos que colocaram as irmãs contra o massacre. Agora os homens que elas amavam… viviam.
“Quando apareceste aqui,” Tanya disse lentamente. “Eu pensei que…”
Eu sabia o que ela tinha pensado. E eu devia saber que ela se ia sentir assim. Mas eu não estava no meu melhor para racionalizar naquele momento...
“ Pensaste que eu tinha mudado de ideias.”
“Sim,” Queixou-se.
“Sinto-me horrível por estar a brincar com as tuas expectativas, Tanya. Eu não queria - Eu não estava a pensar. É só que eu saí… um bocado à pressa.”
“Suponho que não me vais me contar o porquê…?”
Sentei-me e enrolei os braços à volta das minhas pernas, encolhendo-me defensivamente. “Não quero falar sobre isso.”
A Tanya, Irina e Kate adaptaram-se muito bem à vida a que se comprometeram. Até melhor, em algumas formas, que Carlisle. Apesar da proximidade louca a que se colocavam àqueles que deviam ser - e uma vez foram - as suas presas, eles não cometiam erros. Eu estava demasiado envergonhado para admitir a minha fraqueza à Tanya.
“Problemas com mulheres?” - Ela perguntou ignorando a minha relutância.
Fiz um sorriso obscuro “Não da forma que estás a pensar”
Então ela ficou quieta. Ouvi os seus pensamentos enquanto ela os mudava, tentando decifrar o significado das minhas palavras.
“Não estás sequer perto” – Disse-lhe.
“Uma pista?” – Perguntou-me.
“Por favor, deixa isso, Tanya.”
Ela estava quieta de novo, a especular. Ignorei-a e tentei, em vão, admirar as estrelas.
Desistiu depois de um momento de silêncio e os seus pensamentos tomaram outra direcção.
Se nos deixares, para onde é que vais, Edward? De volta para o Carlisle?
“Não me parece” Suspirei.
Para onde é que eu iria? Não conseguia imaginar algum lugar do planeta que me pudesse interessar. Porque não importava para onde fosse, eu nunca ia para algum lugar – ia estar apenas a fugir.
Eu odiava isso. Quando é que me tinha tornado tão cobarde?
A Tanya pôs o seu braço à volta dos meus ombros. Eu enrijeci mas não me desviei do seu toque. Era apenas um conforto amigável. Maioritariamente.
“Eu acho que vais voltar.” - Disse na sua voz com um ligeiro sotaque russo - “Não importa o quê ou quem te está a assombrar. Tu vais enfrentar isso. És desse tipo.”
Os seus pensamentos estavam de acordo com as suas palavras. Tentei abraçar a visão de mim que ela carregava na sua cabeça. Aquele que enfrenta as coisas de cabeça levantada. Eu nunca duvidei da minha coragem, da minha habilidade de enfrentar situações adversas. Até àquela aula terrível de biologia há pouco tempo atrás.
Dei-lhe um beijo na bochecha, voltando-me rapidamente quando ela virou a cara para a minha. Ela sorriu da minha rapidez.
“Obrigado, Tanya. Eu precisava de ouvir isso.”
Os seus pensamentos tornaram-se petulantes “De nada, acho eu. Gostava que fosses mais razoável sobre as coisas, Edward.”
“Desculpa, Tanya. Sabes que és demasiado boa para mim. Eu simplesmente… ainda não encontrei o que estou à procura.”
“Bom, se fores embora antes que te veja outra vez. Adeus, Edward.”
“Adeus, Tanya” - Enquanto dizia as palavras, eu consegui ver isso. Conseguia ver-me a sair de lá, de volta para o sítio onde queria estar. - “Obrigada - de novo.”
Ela levantou-se num movimento. E depois já tinha saído, desaparecendo entre a neve. Não olhou para trás. A minha rejeição incomodou-a mais do que já tinha incomodado antes, até nos seus pensamentos. Ela não me queria ver antes de partir.
Os meus lábios contorceram-se com desapontamento. Eu não gostava de magoar a Tanya, apesar de os seus sentimentos não serem profundos e dificilmente puros. De qualquer das maneiras não era algo que eu poderia corresponder. Ainda me fazia sentir menos cavalheiro.
Pus o meu queixo em cima dos joelhos e olhei para as estrelas outra vez, apesar de estar repentinamente ansioso para voltar ao meu caminho. Eu sabia que Alice me ia ver a voltar para casa e ia contar aos outros. Isso iria fazê-los felizes - principalmente Carlisle e Esme. Mas olhei para as estrelas mais uma vez, e passar o rosto na minha cabeça. Entre mim e as luzes brilhantes do céu, um par de olhos castanhos confusos estavam voltados para mim, fazendo-me questionar o que esta decisão ia significar para ela.
É claro, eu não poderia ter certeza que era isso o que os seus olhos curiosos procuravam. Nem na minha imaginação eu conseguia ouvir os seus pensamentos. Os olhos de Bella Swan continuavam a questionar-se e uma não obstruída visão das estrelas continuou a invadir-me. Com um leve suspiro, eu desisti. Se eu corresse, estaria de volta ao carro do Carlisle em menos de uma hora.
Numa pressa para ver a minha família - e para voltar a ser aquele Edward que enfrenta as coisas – corri através do campo de neve sem deixar pegadas.
“Vai correr tudo bem” - A Alice encorajou. Os seus olhos estavam desfocados e o Jasper tinha uma mão debaixo do seu cotovelo, guiando-a enquanto entrávamos no refeitório num grupo fechado. Rosalie e Emmett indicavam o caminho, o Emmett ridiculamente parecido com um guarda-costas no meio de território inimigo. A Rose também parecia preocupada, porém, bem mais irritada do que protectora.
“Claro que vai.” – Expirei pesadamente. O comportamento deles era ridículo. Se eu não tivesse a certeza de que ia aguentar este momento, tinha ficado em casa.
A repentina mudança da nossa normal, mesmo divertida manhã - tinha nevado ontem à noite, e Emmett e Jasper estavam a tirar vantagem da minha distracção para me bombardearem com bolas de neve; quando se cansasse da minha falta de resposta virar-se-iam um para o outro - para este excesso de vigilância teria sido cómica se não fosse tão irritante.
“Ela ainda não está aqui, mas da maneira que vai entrar… não vai ficar contra o vento se nos sentarmos no lugar de sempre.”
“Claro que nos vamos sentar no lugar de sempre! Pára com isso Alice. Estás-me a dar cabo dos nervos. Vou ficar absolutamente bem.”
Ela piscou os olhos uma vez enquanto o Jasper a ajudava a sentar-se e os seus olhos finalmente focaram-se em mim.
“Hum…” - Disse, soando surpreendida. “Acho que tens razão”
“Claro que tenho” - Murmurei.
Eu odiava estar no centro da preocupação deles. Senti uma certa solidariedade por Jasper ao lembrar-me das inúmeras vezes que nós o superprotegemos. Ele percebeu de relance os meus sentimentos e sorriu.
Irritante, não é?
Eu assenti.
Foi apenas a semana passada que esta grande e monótona sala tinha parecido tão mortalmente depressiva para mim?
Pareceria quase como um sonho, um coma, estar aqui?
Hoje os meus nervos estavam firmes - cordas de piano, tensas que tocam à mais leve pressão. Os meus sentidos estavam super alertas, vigiei cada som, cada suspiro, cada movimento de ar que tocava a minha pele, cada pensamento. Especialmente os pensamentos. Só havia um sentindo que eu me recusei a usar. Olfacto, é claro.
Não respirei.
Eu estava à espera de ouvir mais sobre os Cullen nos pensamentos que investiguei. Estive todo o dia à espera, a procurar por cada novo pensamento sobre Bella Swan ter contado a alguém, a tentar ver a direcção que o novo mexerico seguiria. Mas não havia nada. Ninguém reparou que havia 5 vampiros no refeitório, exactamente como antes da nova rapariga chegar. Muitos humanos aqui ainda estavam a pensar sobre aquela rapariga, os mesmos pensamentos da semana passada. Em vez de achar aquilo inalteravelmente aborrecido, eu estava fascinado.
Ela não tinha dito nada a ninguém sobre mim?
Era impossível que ela não tivesse reparado no meu obscuro, olhar assassino. Eu vi-a reagir a isso. De certeza que a tinha assustado. Eu estava convencido de que ela tinha mencionado isso a alguém, talvez até tivesse exagerado na história um bocado para fazê-la melhor. Atribuindo-me alguns traços ameaçadores.
E depois, também me viu a tentar cancelar as nossas aulas partilhadas de biologia. Ela deve-se ter perguntado, depois de ver a minha expressão, se tinha sido ela a causa. Uma rapariga normal teria perguntado por aí, comparado a sua experiência com os outros, procurado por algum terreno em comum que pudesse explicar o meu comportamento e então não se sentiria sozinha. Os humanos estão constantemente desesperados por se sentirem normais, por se encaixarem. Por se misturar com os outros ao seu redor, como mais uma desinteressante no rebanho. Essa necessidade era particularmente forte durante os inseguros anos da adolescência. Aquela rapariga não devia ser uma excepção àquela regra.
Mas ninguém nos tinha dado atenção aqui sentados, na nossa mesa normal. A Bella devia ser excepcionalmente tímida, se não tinha confidenciado a alguém. Talvez tivesse falado com o seu pai, talvez esse fosse o seu melhor relacionamento… Apesar de isso soar improvável, dado o facto de que ela tinha passado tão pouco tempo com ele durante a sua vida. Ela devia ser mais próxima da sua mãe. Mesmo assim, eu devia passar pelo Chefe Swan numa altura qualquer e ouvir o que ele estava a pensar.
“Algo novo?” - O Jasper perguntou.
“Nada. Ela… não deve ter dito nada.”
Todos ergueram uma sobrancelha com as novidades.
“Talvez não sejas tão assustador como achas que és.” - O Emmett disse, a rir-se. “Aposto que eu a teria apavorado mais do que ISSO.”
Eu rolei meus olhos até ele.
“ A imaginar o porquê…?” – Ele surpreendeu-se com a minha revelação sobre o silêncio único da rapariga.
“Já falámos disso. Eu não sei.”
“Ela vem aí,” - A Alice murmurou. Eu senti o meu corpo a ficar rígido. “Tenta parecer humano.”
“Humano… dizes?” - O Emmett perguntou.
Ele levantou o punho direito, girando os dedos para revelar a bola de neve que tinha guardado na sua palma. É claro que ela não tinha derretido ali. Ele apertou-a num volumoso bloco de gelo. Tinha os olhos em Jasper, mas eu vi a direcção dos seus pensamentos. E Alice também, claro. Quando ele lançou abruptamente o pedaço de gelo até ela, ela mandou-o para longe com um leve balançar dos dedos. O gelo ricocheteou através do corredor do refeitório; muito rápido para os olhos humanos, e fragmentou-se com um agudo barulho na parede de tijolo. O tijolo partiu-se também.
As cabeças na esquina do refeitório viraram-se todas para olhar para a pilha de gelo no chão, e viraram-se para procurar sua origem. Não olharam muito mais longe do que algumas mesas. Ninguém olhou para nós.
“Muito humano, Emmett,” - A Rosalie disse de maneira fulminante. “Porque é que não vais lá e dás um murro através da parede?”
“Seria mais impressionante se fosses tu a fazer isso, querida.”
Tentei-lhes prestar atenção, mantendo um sorriso fixo na minha cara como se estivesse a fazer parte da brincadeira. Não me permiti olhar na direcção onde ela estava de pé. Mas isso foi tudo que eu ouvi também.
Conseguia ouvir a impaciência de Jessica com a rapariga nova, que parecia estar distraída, também, permanecendo imóvel na fila em movimento. Eu vi, nos pensamentos de Jessica, que as bochechas de Bella Swan ficaram mais uma vez rosadas com o sangue.
Respirei curta e rapidamente, pronto para parar de respirar se qualquer traço do seu odor tocasse no ar ao meu redor.
O Mike Newton estava com as duas raparigas. Eu conseguia ouvir as duas vozes: mental e verbal, quando ele perguntou o que é que se passava com a rapariga Swan. Eu não gostava da maneira como os seus pensamentos estavam envolvidos nela, um brilho das suas fantasias já construídas divagaram na sua mente enquanto ele via-a a ficar surpreendida e olhar para cima como se tivesse-se esquecido que ele estava ali.
“Nada” - Ouvi Bella a dizer numa voz baixa e clara. Parecia soar como um sino sobre todos os murmúrios do refeitório, mas eu sabia que isso era só porque eu estava a ouvir de forma tão intensa.
“Vou só beber um sumo hoje,” ela continuou enquanto se movia para seguir com a fila.
Eu não consegui evitar olhar de relance na sua direcção. Ela estava a olhar para o chão, o sangue lentamente a esvair-se do seu rosto. Olhei rapidamente para longe, para Emmett, que agora se ria do sorriso aflito no meu rosto.
Pareces doente, mano.
Arranjei as minhas feições para parecer mais casual e natural.
A Jessica estava a perguntar-se sobre a falta de apetite da rapariga. “Não tens fome?”
“Na verdade, sinto-me um pouco enjoada.” A sua voz soou mais baixa, mas ainda assim, perfeitamente clara.
Por que é que me incomodava, a preocupação protectora que repentinamente surgiu dos pensamentos do Newton? O que é que importava que houvesse um timbre possessivo neles? Não me dizia exactamente respeito se Mike Newton se sentia desnecessariamente ansioso por ela. Talvez essa fosse a maneira que todos lhe correspondiam. Eu não tinha querido, instintivamente, protegê-la, também?
Quer dizer… Antes de ter querido matá-la.
Mas a rapariga estava doente?
Era difícil de avaliar - ela parecia tão delicada com aquela pele translúcida… e então apercebi-me que me estava a preocupar também, assim como aquele rapaz estúpido, e forcei-me a não pensar sobre a saúde dela.
Apesar disso, eu não gostava de vigiá-la através dos pensamentos de Mike. Troquei para a Jessica, olhando cuidadosamente enquanto eles os três escolhiam uma mesa para se sentar. Felizmente, sentaram-se com as companhias habituais de Jessica, uma das primeiras mesas da sala. Não na direcção do vento, assim como Alice tinha prometido.
A Alice deu-me uma cotovelada. Ela vai olhar para aqui, age como humano.
Trinquei os dentes por detrás do meu sorriso.
“Acalma-te Edward,” – Disse o Emmett. “Honestamente. Então matas um humano. Dificilmente isso é o fim do mundo”.
“Tu saberias isso.” - Murmurei.
O Emmett riu-se. “Tens de aprender a ultrapassar as coisas. Como eu faço. A eternidade é muito tempo para ficares afundado na culpa.”
E então, a Alice lançou uma pequena mão cheia de gelo que tinha escondido, na cara confiante de Emmett.
Ele piscou os olhos, surpreendido, e então sorriu na antecipação.
“Tu é que pediste,” – Disse-lhe Emmett, enquanto se inclinava sobre a mesa e sacudia o cabelo coberto de gelo na sua direcção. A neve, que se derretia no ar morno, lançou-se do seu cabelo num denso banho metade líquido, metade gelo.
“Ew!” - A Rose reclamou, enquanto ela e a Alice recuavam da inundação.
A Alice riu-se e todos nós acompanhámo-la. Conseguia ver na mente de Alice como ela tinha orquestrado este momento perfeito e eu sabia que aquela rapariga - eu tinha que parar de pensar nela daquela maneira, como se ela fosse a única rapariga do mundo - que Bella devia estar a olhar para nós enquanto nos ríamos e brincávamos, parecendo felizes e humanos e de forma tão irreal como uma pintura de Norman Rockwell.
A Alice continuou a rir-se, e segurou no seu tabuleiro como um escudo. Aquela rapariga - A Bella ainda devia estar a olhar para nós
A olhar para os Cullens outra vez, - Alguém pensou, e chamou-me à atenção.
Olhei automaticamente para o chamamento não intencional, e percebia que tinha reconhecido a voz assim que encontrava o seu destino – tinha-a ouvido tanto hoje.
Os meus olhos deslizaram pela Jessica e passaram por ela. Focaram-se no olhar penetrante da rapariga.
O que é que ela estava a pensar? A frustração parecia aumentar enquanto o tempo passava, em vez de diminuir. Eu tentei – sem saber ao certo o que estava a fazer, já que nunca tinha tentado isto antes - sondar com a minha mente o silêncio à volta dela. A minha audição extra vinha naturalmente para mim, sem pedir; nunca tive que a forçar. Mas agora concentrei-me, e tentei passar por qualquer escudo que houvesse à volta dela.
Nada a não ser silêncio.
O que é que ela tem? Pensou Jessica, ecoando a minha própria frustração.
“ O Edward Cullen está a olhar-te fixamente,” - Sussurrou ao ouvido da rapariga Swan, com um sorriso falso. Não houve nenhuma insinuação da irritação invejosa no seu tom. A Jessica parecia ser experiente no fingimento de amizade.
Fiquei à escuta, muito claramente, da resposta da rapariga.
“Não parece zangado, pois não?”- Sussurrou também.
Então ela tinha notado a minha reacção selvagem a semana passada. É claro que tinha.
A pergunta pareceu confundir Jessica. Vi a minha própria cara nos seus pensamentos enquanto ela analisava a minha expressão, mas eu não encontrei o olhar dela. Ainda estava concentrado na rapariga, a tentar ouvir alguma coisa. A minha concentração intencional não parecia estar a ajudar em nada.
“Não,” - A Jess disse-lhe, e eu sabia que ela estava desejosa de poder dizer que sim - como isso a envenenou por dentro, o meu olhar - apesar de não demonstrar de forma alguma na sua voz: “Devia estar?”
“Acho que ele não gosta de mim,” - A rapariga respondeu-lhe num sussurro, deitando a cabeça no seu braço como se estivesse subitamente cansada. Tentei entender o seu movimento, mas só pude fazer suposições. Talvez ela estivesse cansada.
“Os Cullens não gostam de ninguém,” - A Jess asseguro-a - “Bem, não se mostram delicados o suficiente para que as pessoas gostem deles.” Não costumavam mostrar. O seu pensamento foi um rosnar de reclamação. “Mas ele continua a olhar-te fixamente.”
“Pára de olhar para ele,” a rapariga disse ansiosamente, e ergueu a cabeça para ter a certeza que Jessica a obedeceu.
A Jessica sorriu, mas fez o que ela pediu.
A rapariga não desviou o olhar da sua mesa o resto do tempo. Eu pensei - pensei, é claro, não podia ter a certeza - que isso foi intencional. Parecia que ela queria olhar para mim. O seu corpo deslocava-se ligeiramente na minha direcção, o seu queixo começava a virar-se, e então ela repreendia-se, respirava fundo e olhava fixamente para qualquer pessoa que estivesse a falar.
Ignorei a maior parte dos outros pensamentos à volta da rapariga, já que não eram, momentaneamente, sobre ela. O Mike Newton estava a planear uma guerra de neve no parque de estacionamento depois da escola, sem parecer perceber que a neve já tinha mudado para chuva. A agitação dos leves flocos contra o tecto já tinha tornado o padrão comum de gotas de água. Ele não conseguia mesmo ouvir a mudança? Eu conseguia ouvir bastante alto.
Quando a hora de almoço acabou, eu continuei no meu lugar. Os humanos saíam, e eu apanhei-me a tentar distinguir o som dos passos dela do som do resto, como se houvesse algo de importante ou incomum neles. Que estupidez.
A minha família também não se mexeu para ir embora. Esperaram para ver o que eu ia fazer.
Ia para a aula, sentar-me ao lado da rapariga onde podia sentir a fragrância absurdamente potente do seu sangue e sentir o calor da sua pulsação do ar na minha pele? Era forte o suficiente para isso? Ou já tinha tido o suficiente para um dia?
- Eu… acho que está tudo bem. - A Alice disse, hesitante. - A tua mente está preparada. Eu acho que vais conseguir aguentar por uma hora.
Mas a Alice sabia muito bem a rapidez com que uma mente podia mudar.
- Porquê arriscar, Edward? - O Jasper perguntou. Embora ele não se quisesse sentir presunçoso por ser agora eu o fraco, eu conseguia ouvir que ele se sentia, só um bocado. - Vai para casa. Vai com calma.
- Qual é o problema? - O Emmett discordou. - Ou ele vai ou não a vai matar. É melhor acabar com isto de uma vez, de uma maneira ou da outra.
- Eu ainda não me quero mudar. - A Rosalie reclamou. – Não quero começar tudo de novo. Estamos quase a acabar o liceu, Emmett. Finalmente.
Eu estava realmente dividido na decisão. Eu queria, queria muito, encarar isto de cabeça, e não fugir para longe outra vez. Mas também não me queria arriscar muito. Tinha sido um erro a semana passada para Jasper ficar tanto tempo sem caçar; será que isto também era um erro sem sentido?
Eu não queria afastar a minha família. Nenhum deles me ia agradecer por isso.
Mas eu queria ir para a minha aula de biologia. Apercebi-me que queria ver o rosto dela outra vez.
Foi isso que tomou a decisão. Aquela curiosidade. Estava irritado comigo mesmo por sentir isso. Não tinha prometido que não ia deixar que o silêncio da mente da rapariga me deixasse desnecessariamente interessado nela? E mesmo assim, aqui estava eu, ainda mais desnecessariamente interessado.
Eu queria saber o que é que ela estava a pensar. A mente dela era fechada mas os seus olhos eram muito abertos. Talvez eu pudesse ver por eles.
- Não, Rose, eu acho que vai ficar tudo bem. - A Alice disse. - Está… a firmar-se. Eu tenho noventa e três por cento de certeza de que nada de mau vai acontecer se ele for para a aula. - Ela olhou-me curiosamente, perguntando-se o que tinha mudado nos meus pensamentos que fez a sua visão do futuro muito mais segura.
Curiosidade seria o suficiente para manter a Bella Swan viva?
O Emmett tinha razão - por que não acabar com isto, de uma maneira ou de outra? Eu ia enfrentar a tentação de cabeça.
- Vão para as vossas aulas. - Ordenei, afastando-me da mesa. Virei-me e andei para longe deles sem olhar para trás. Conseguia ouvir a preocupação de Alice, a censura de Jasper, a aprovação de Emmett e a irritação de Rosalie a arrastarem-se às minhas costas.
Respirei fundo outra vez à porta da sala de aula, e segurei o ar nos meus pulmões enquanto entrava no espaço pequeno e quente.
Não estava atrasado. O Sr. Banner ainda estava arranjar tudo para a experiência de laboratório de hoje. A rapariga sentou-se na minha - na nossa mesa, a sua cara estava virada para baixo outra vez, a olhar para o caderno em que desenhava. Examinei os rabiscos quando me aproximei, até estava interessado naquela criação banal da sua mente, mas eram coisas sem sentido. Só ondas e mais ondas. Talvez ela não se estivesse a concentrar no padrão, mas a pensar noutra coisa qualquer?
Puxei a minha cadeira com um barulho desnecessário, deixando-a raspar no chão de linóleo; os humanos sentiam-se sempre mais confortáveis quando algum barulho anunciava a aproximação de qualquer outra pessoa.
Eu sabia que ela tinha ouvido o som; não olhou para cima, mas a mão dela falhou numa onda do formato que ela estava a fazer, deixando-o torto.
Por que é que ela não olhou para cima? Provavelmente estava assustada. Tinha que garantir que a ia deixar com uma impressão diferente desta vez. Fazê-la pensar que antes, tinha imaginado coisas.
- Olá. - Disse na voz calma que usava quando queria deixar os humanos mais confortáveis, formando um sorriso educado com os meus lábios que não mostraria nenhum dente.
Ela olhou para cima então, os seus olhos atentos, castanhos e assustados - quase desorientados - e cheios de perguntas silenciosas. Era a mesma expressão que tinha obstruído a minha visão durante a última semana.
Enquanto encarava aqueles olhos castanhos estranhamente intensos, percebi que o ódio - o ódio que eu tinha imaginado que esta rapariga merecia por simplesmente existir - tinha evaporado. Agora sem respirar, sem sentir o seu cheiro, era difícil acreditar que alguém tão vulnerável pudesse justificar ódio.
As bochechas dela começaram a corar e ela não disse nada.
Mantive meus olhos nos dela, e concentrei-me só nas suas profundezas questionadoras, e tentei ignorar a cor apetitosa. Eu tinha fôlego o suficiente para falar mais um bocado sem inalar.
- Chamo-me Edward Cullen. - Disse, embora soubesse que ela sabia isso. Era a maneira mais educada de começar. - Não tive a oportunidade de me apresentar na semana passada. Deves ser a Bella Swan.
Ela pareceu confusa - tinha uma pequena ruga entre os olhos novamente. Levou meio segundo a mais do que devia para responder.
- Como é que sabes o meu nome? - Perguntou, e sua voz tremeu um bocado.
Eu devia tê-la realmente assustado. Isso fez-me sentir culpado; ela era tão indefesa. Ri-me gentilmente - era um som que eu sabia que deixava os humanos mais à vontade. Novamente, fui cuidadoso com meus dentes.
- Oh, acho que todos sabem o teu nome. – De certeza que ela tinha percebido que se tinha tornado o centro das atenções neste lugar monótono. – Toda a cidade tem estado a aguardar a tua chegada.
Ela fez uma careta como se aquela informação fosse desagradável. Supus que, sendo tímida como ela parecia ser, atenção ia parecer uma coisa má para ela. A maioria dos humanos sentia o oposto. Embora não se quisessem destacar numa multidão, ao mesmo tempo desejavam um holofote para as suas uniformidades individuais.
- Não. - Disse. – O que eu queria perguntar-te era por que motivo me chamaste Bella?
- Preferes Isabella? - Perguntei, perplexo pelo facto de não conseguir ver onde é que ela queria chegar com aquela pergunta. Não entendi. Obviamente, ela deixou a sua preferência clara muitas vezes naquele primeiro dia. Será que todos os humanos eram incompreensíveis sem um contexto mental como guia?
- Não, gosto de Bella. - Respondeu, inclinando a cabeça levemente para um lado. A sua expressão - se eu estivesse a ler correctamente - estava dividida entre vergonha e confusão. - Mas julgo que o Charlie… quer dizer, o meu pai, deve chamar-me Isabella nas minhas costas. Parece que é por esse nome que todas as pessoas daqui me conhecem. - A sua pele ficou num tom de rosa mais escuro.
- Ah. - Disse indevidamente, e desviei rapidamente os meus olhos do seu rosto.
Tinha acabado de perceber o que as perguntas dela queriam dizer: eu tinha cometido um erro, um lapso. Se eu não tivesse ouvido todas as conversas dos outros naquele primeiro dia, então eu tinha-a chamado inicialmente pelo nome inteiro, como todos os outros. Ela tinha notado a diferença.
Senti-me desconfortável, ela foi muito rápida a perceber o meu erro. Bastante astuta, especialmente para alguém que deveria estar aterrorizada pela minha proximidade.
Mas eu tinha problemas maiores do que qualquer que fosse a suspeita que ela tivesse sobre mim na sua cabeça.
Eu estava a ficar sem ar. Se quisesse falar com ela de novo, eu ia ter que respirar.
Ia ser difícil evitar falar. Infelizmente para ela, compartilhar esta mesa tornava-a a minha parceira de laboratório, e hoje nós teríamos que trabalhar juntos. Seria estranho - e incompreensivelmente rude - ignorá-la enquanto fazíamos a experiência. Ia deixá-la mais suspeita, mais assustada…
Inclinei-me o mais longe possível dela sem mexer a minha cadeira, virando a minha cabeça para o corredor. Prendi-me, trancando os meus músculos no lugar, e então aspirei um rápido peito cheio de ar, respirando apenas pela minha boca.
Ah!
Era genuinamente doloroso. Mesmo sem sentir o cheiro dela, eu conseguia sentir o sabor dela na minha língua. A minha garganta de repente estava em chamas outra vez, a necessidade era tão forte como a daquele primeiro momento em que eu senti o cheiro dela.
Juntei os meus dentes e tentei recompor-me.
- Comecem. - O Sr. Banner ordenou.
Pareceu que foi preciso cada pequena partícula de auto-controle que tinha acumulado em setenta anos de trabalho árduo para virar minha cabeça para a rapariga, que estava a olhar para a mesa, e sorrir.
- Primeiro, as senhoras, parceira? - Ofereci.
Ela olhou para minha expressão e seu rosto ficou vazio, os olhos arregalados. Havia algo de errado com a minha expressão? Ela estava assustada novamente? Ela não falou.
- Ou, se desejares, posso ser eu a começar. - Disse calmamente.
- Não. - Ela disse, e rosto dela passou de branco para vermelho outra vez. - Eu começo.
Olhei para o equipamento na mesa, o microscópio arranhado, a caixa de slides, em vez de ver o sangue a correr por baixo da pele clara dela. Inspirei outra vez rapidamente, pelos meus dentes, e recuei quando o gosto fez a minha garganta arder.
- Prófase. - Disse depois de um rápido exame. E começou a remover o slide, embora mal o tivesse visto.
- Importas-te que dê uma espreitadela? - Instintivamente - estupidamente, como se eu fosse da espécie dela – estendi-me para parar a mão que removia o slide. Por um segundo, o calor da sua pele queimou a minha. Foi como uma corrente eléctrica - certamente muito mais quente do que meros 37 graus. O tiro de calor passou pela minha mão e correu pelo meu braço. Ela puxou rapidamente a sua mão debaixo da minha.
- Desculpa. - Murmurei por entre dentes. Como precisava de algum lugar para olhar, segurei no microscópio e olhei brevemente pelo buraco. Ela estava certa.
- Prófase. - Concordei.
Eu ainda estava demasiado perturbado para olhar para ela. Enquanto respirava tão calmamente quanto conseguia por entre dentes cerrados, e ignorava a sede furiosa, eu tentava-me concentrar naquela simples tarefa, escrevendo a palavra no espaço adequado na ficha do laboratório, e trocava o primeiro slide pelo próximo.
O que é que ela estava a pensar agora? Como será que ela se sentiu, quando toquei na sua mão? A minha pele deve ter parecido gelo - repulsivo. Não me admirava que estivesse tão quieta.
Dei uma olhada no slide.
- Anáfase. - Disse para mim mesmo enquanto escrevia na segunda linha.
-Posso? - Ela perguntou.
Olhei para cima, para ela, surpreendido ao ver que ela estava à espera, na expectativa, uma mão meio estendida na direcção do microscópio. Ela não parecia estar com medo. Ela pensava realmente que eu tinha errado na resposta?
Não consegui evitar e sorri do seu olhar esperançoso no rosto dela enquanto lhe passava o microscópio.
Olhou para o microscópio com uma vontade que desapareceu logo. Os cantos da sua boca desceram rapidamente.
- Passamos ao terceiro diapositivo? - Perguntou ela, sem olhar por cima do microscópio, mas com a mão estendida. Coloquei o slide seguinte na mão dela, sem deixar que a minha pele chegasse perto da dela desta vez. Sentar-me ao lado dela era como sentar-me ao lado de uma lâmpada. Conseguia sentir-me a aquecer ligeiramente graças à temperatura mais alta.
Ela não olhou para o slide por muito tempo. “Intérfase” disse de forma casual - talvez tentando demasiado soar assim - e empurrou o microscópio na minha direcção. Ela não tocou no papel, mas esperou que eu escrevesse a resposta. Eu verifiquei - ela estava correcta de novo.
Terminámos desta forma, a dizer uma palavra de cada vez sem nunca nos olharmos nos olhos. Nós éramos os únicos que tinham acabado - os outros da aula estavam a ter mais dificuldade com o laboratório. O Mike Newton parecia estar a ter problemas a concentrar-se - estava a tentar observar-me a mim e à Bella.
Quem me dera que ele tivesse ficado onde quer que tenha ido.
Mike pensou, olhando-me com raiva. Hum, interessante. Não tinha reparado que o rapaz tinha mantido algum sentimento negativo em relação a mim. Isto era um novo acontecimento, tão recente quanto a chegada da nova rapariga. Ainda mais interessante, pensei - para minha própria surpresa - que o sentimento era mútuo.
Olhei para baixo para a rapariga outra vez, perplexo pelo tamanho da devastação e violência que, apesar de comum; sem ameaça aparente, ela estava a causar na minha vida.
Não era que eu não percebesse o que é que se passava com o Mike. Na realidade ela era bonita…de uma forma diferente. Melhor do que estar bonita, a sua cara estava interessante. Não bem simétrico. O seu queixo mais pontiagudo fora de sintonia com as maçãs do rosto largas, fortemente ruborizadas, o claro e escuro contraste da sua pele e o seu cabelo, e depois havia os olhos. A brilhar sobre segredos silenciosos.
Olhos que de repente estavam perdidos nos meus.
Olhei também para ela, tentando descobrir pelo menos um dos seus segredos.
- Puseste lentes de contacto? - Perguntou de repente.
Que pergunta estranha. “Não” Quase sorri com a ideia de tentar melhorar a minha visão.
- Oh - Murmurou. – Pensei que havia algo diferente nos teus olhos.
Senti-me gelado outra vez conforme notei que aparentemente eu não era o único a tentar descobrir segredos hoje.
É claro que havia algo diferente nos meus olhos desde a última vez que ela tinha olhado para eles. Para me preparar para hoje, para a tentação de hoje, passei o fim-de-semana inteiro a caçar, a matar a minha sede o máximo possível, mais do que o necessário. Afoguei-me no sangue de animais, não que fizesse muita diferença a enfrentar este absurdo sabor a flutuar ao redor do ar perto dela. Da última vez que tinha olhado para ela, os meus olhos tinham estado pretos pela sede. Agora, como o meu corpo nadava em sangue, os meus olhos estavam com uma cor dourada. Castanho-claro, âmbar pelo meu excesso de alimento.
Outro lapso. Se eu me tivesse apercebido do que ela quis dizer com a pergunta, podia simplesmente ter dito que eram lentes.
Sentava-me ao lado de humanos há quase dois anos nesta escola, ela foi a primeira a tentar examinar-me perto o suficiente para notar a diferença da cor nos meus olhos. Os outros, enquanto admiravam a beleza da minha família, tinham a tendência de olhar para baixo rapidamente quando nós olhávamos de volta. Eles protegiam-se, bloqueavam detalhes das nossas aparências como uma tentativa forte e instintiva de nos entender. Ignorância era uma bênção para a mente humana.
Por que é que tinha de ser esta rapariga a ver tanto?
O Sr. Banner aproximou-se da nossa mesa. Eu agradeci o ar puro que ele trouxe consigo antes que se pudesse misturar com o cheiro dela.
- Então, Edward, - Disse enquanto olhava para as nossas respostas, - Não achaste que deveria ser dada à Isabella a oportunidade de utilizar o microscópio?
- À Bella – Corrigi-o por puro reflexo. - Na verdade, ela identificou três das cinco fases representadas nos diapositivos.
Os pensamentos de Mr. Banner eram cépticos enquanto se virava para ela. – Já realizaste este trabalho laboratorial?
Eu assisti, envolvido, quando ela sorriu, parecendo um pouco envergonhada.
- Com raiz de cebola, não
- Com blástula de coregono? - Perguntou.
- Sim.
Isso surpreendeu-o. A aula de hoje foi algo que ele foi buscar a um curso mais avançado. Ele assentiu pensativo. - Em Phoenix, estavas integrada num programa de colocação elevada?
- Estava.
Ela estava avançada, então, inteligente para uma humana. Isso não me surpreendeu.
- Bem – Disse o Sr. Banner, franzindo o lábio. – Suponho que o facto de vocês os dois serem parceiros de laboratório seja proveitoso.
Ele virou-se e foi embora a murmurar “Para que os outros possam ter uma oportunidade de aprender algo por eles mesmos.”. Eu duvidei que a rapariga conseguisse ouvir aquilo. Voltou a desenhar círculos à volta redor do caderno de apontamentos.
Dois lapsos em meia hora. Uma demonstração insatisfatória da minha parte. Apesar de que eu não tinha nenhuma ideia do que a rapariga pensava de mim - Quanto medo é que ela tinha, quanto é que ela suspeitava? Eu sabia que precisaria me esforçar mais daqui para a frente para fazê-la mudar a opinião sobre mim. Alguma coisa que a fizesse esquecer do nosso último ameaçador encontro.
- Foi pena aquilo da neve, não foi? – Disse, repetindo o assunto que vários outros alunos já tinham discutido. Um tópico habitual e aborrecido. O tempo - sempre seguro.
Ela olhou para mim, a dúvida óbvia no seu olhar - uma reacção anormal para as minhas palavras muito normais. “Nem por isso” – Disse, surpreendendo-me outra vez.
Tentei direccionar a conversa de volta a um caminho mais comum. Ela era de um sítio muito mais claro, mais quente. A sua pele parecia reflectir isso de alguma maneira, apesar da sua palidez, e o frio devia fazê-la sentir-se desconfortável. O meu toque gelado com certeza tinha…
- O frio não te agrada. - Adivinhei.
- Nem o tempo chuvoso. - Assentiu.
- Deve ser difícil para ti viver em Forks. - Talvez não devesses ter vindo para cá, eu quis acrescentar. Talvez devesses voltar ao lugar de onde vieste.
Porém, eu não tinha a certeza se era isso que eu queria. Eu ir-me-ia lembrar sempre do cheiro do seu sangue – havia alguma garantia de que eu não a seguiria? Além disso, se ela se fosse embora, a sua mente ia ser sempre um mistério. Um constante e insistente quebra-cabeças.
- Nem fazes ideia. - Disse em voz baixa e senti-me carrancudo por um momento.
As suas respostas nunca eram o que eu esperava que fossem. Isso fez-me querer fazer mais perguntas.
- Então, porque vieste para cá? - Eu reclamei, percebendo que meu tom de voz era muito acusatório, não era casual o bastante para a conversa. A pergunta pareceu rude, intrometida.
- É… complicado.
Ela piscou os seus grandes olhos, não dando maiores informações, e eu quase explodi de curiosidade - a curiosidade queimou-me com uma força tão forte quanto a sede na minha garganta. Na realidade, estava a ficar um bocado mais fácil respirar; a agonia estava a ficar mais tolerável enquanto me familiarizava.
- Acho que consigo acompanhar-te. - Insisti. Talvez a cortesia comum a fizesse continuar a responder às minhas perguntas desde que fosse rude o suficiente para as perguntar.
Ela olhou silenciosamente para as mãos. Isso deixou-me impaciente; eu queria pôr a minha mão debaixo do seu queixo e levantar-lhe a cabeça para que pudesse ler os seus olhos. Mas fazer isso seria uma tolice da minha parte, perigoso, tocar na sua pele novamente.
Levantou os olhos subitamente. Era um alívio poder ver as emoções nos seus olhos outra vez. Ela falou apressadamente, a apressar-se nas palavras.
- A minha mãe casou pela segunda vez.
Ah, aquilo era humano o suficiente, fácil de entender. A tristeza passou pelos seus olhos translúcidos e enrugou a testa outra vez.
- Não parece ser algo assim tão complexo. - Disse. A minha voz soou gentil sem que eu me esforçasse para isso. A sua tristeza fez-me sentir estranhamente impotente, a desejar que houvesse algo ao meu alcance para fazê-la sentir-se melhor. Um estranho impulso. - Quando é que isso aconteceu?
- No passado mês de Dezembro. - Expirou pesadamente - nada mais do que um suspiro. Sustive a minha respiração quando a sua respiração quente passou no meu rosto.
- E tu não gostas dele. - Supus, a pescar por mais informações.
- Não, o Phil é uma boa pessoa. - Disse, corrigindo a suposição. Havia a ponta de um sorriso agora nos cantos de seus lábios. – Talvez um pouco jovem de mais, mas bastante simpático.
Ok, isto não se encaixava com o cenário que tinha imaginado na minha cabeça.
- Porque não ficaste com eles? - Perguntei, a minha voz um pouco curiosa demais. Parecia que eu estava a ser bisbilhoteiro. E estava a ser, admito.
- O Phil viaja muito. Ganha a vida a jogar à bola. - O pequeno sorriso cresceu; aquela escolha de carreira divertia-a.
Eu sorri, também, sem escolher fazê-lo. Não estava a tentar fazê-la sentir-se à vontade. O seu sorriso apenas me fez querer sorrir de volta - fazer parte do segredo.
- Já ouvi falar dele? - Passei as fotos de posters de jogadores de basebol na minha cabeça, a perguntar-me qual deles era Phil…
- Provavelmente não. Ele não joga bem. - Outro sorriso. – Joga na segunda liga e desloca-se muito.
As caras na minha mente desapareceram instantaneamente e fiz uma lista de possibilidades em menos de um segundo. Ao mesmo tempo, estava a imaginar um novo cenário.
- E a tua mãe mandou-te para cá de modo a poder viajar com ele. - Disse. Fazer suposições parecia funcionar melhor com ela do que fazer perguntas. Funcionou de novo. O seu queixo elevou-se e sua expressão de repente ficou dura.
- Não, ela não me mandou para aqui. - Disse, e sua voz tinha novo tom, duro e irritado. A minha suposição tinha-a deixado triste, embora eu não conseguisse entender o porquê. – Vim por vontade própria.
Não consegui entender o motivo, ou a razão por detrás da sua tristeza. Eu estava completamente perdido.
Então desisti. Esta rapariga simplesmente não fazia sentido nenhum. Ela não era como os outros humanos. Talvez o silêncio dos seus pensamentos e o perfume do seu cheiro não fossem as únicas coisas incomuns nela.
- Não compreendo. - Admiti, odiando ceder.
Ela suspirou, e olhou para os meus olhos por mais tempo do que a maioria dos humanos normais seriam capazes de suportar.
- A princípio, ficava comigo, mas sentia saudades dele. - Explicou devagar, com o seu toma ficar mais desesperado a cada palavra. – A separação fazia-a infeliz, logo, decidi que estava na altura de passar algum tempo útil com o Charlie.
A mínima ruga entre os seus olhos intensificou-se.
- Agora, porém, és tu quem está infeliz. - Murmurei. Eu não conseguia parar de dizer as minhas hipóteses em voz alta, desejando aprender com as suas reacções. Esta, porém, não parecia tão diferente do normal.
- E daí? - Disse, como se esse não fosse um aspecto que merecesse ser considerado.
Continuei a olhar-lhe para os olhos, e senti que finalmente tinha conseguido ter um vislumbre da sua alma. Vi naquela única palavra, onde ela se tinha posicionado na sua própria lista de prioridades. Ao contrário dos outros humanos, as suas próprias necessidades estavam bem abaixo da lista.
Ela era altruísta.
Enquanto reparava nisso, o mistério daquela pessoa escondida numa mente silenciosa começou a atenuar um bocado.
- Não parece ser justo. – Disse-lhe. Encolhi os ombros, tentando parecer casual, tentando omitir a intensidade da minha curiosidade.
Ela riu-se, mas não havia diversão no som. – Nunca ninguém te disse «A vida não é justa»?
Queria-me rir das suas palavras, embora também me não estivesse a divertir. Eu sabia um bocado sobre a injustiça da vida. – Creio já ter ouvido isso algures.
Ela olhou outra vez para mim, parecendo confusa. Desviou os olhos e depois olhou-me de novo.
- Então, é tudo. – Disse-me.
Mas eu não estava preparado para acabar esta conversa. O pequeno “V” entre os seus olhos, um resto da sua dor, incomodava-me. Eu queria arrancá-la com a ponta do meu dedo, mas obviamente não podia tocá-la. Isso não era seguro de várias formas.
- Disfarças bem. - Disse devagar, ainda a considerar a próxima hipótese. - Mas estaria disposto a apostar que estás a sofrer mais do que demonstras a todos.
Ela fez um esgar, os seus olhos apertados e sua boca torcendo-se num beicinho, e olhou outra vez para a frente da sala. Não gostou que eu tivesse adivinhado correctamente. Ela não era o típico mártir. Ela não queria uma plateia para a sua dor.
- Estou enganado?
Ela recuou um bocado, mas por outro lado fingiu não me ouvir.
Isso fez-me sorrir. – Bem me pareceu que não.
- Por que é que isso te interessa? - Ela quis saber, ainda a olhar para longe.
- Essa é uma excelente pergunta. - Admiti, mais para mim mesmo do que para lhe responder.
O seu discernimento era melhor do que o meu. Ela estava bem no centro das coisas enquanto eu me debatia cegamente através das pistas. Os detalhes da sua vida muito humana não me deviam interessar. Era errado para mim interessar-me pelo que ela pensava. A não ser que fosse para proteger a minha família, pensamentos humanos não eram significantes.
Eu não estava habituado a ser o menos intuitivo num par. Confiei demasiado no meu “ouvido extra”. Obviamente que não era tão perceptivo como eu achei que fosse.
A rapariga suspirou e ficou carrancuda a encarar a frente da sala. Algo na sua expressão frustrada era engraçado. A situação em si, toda a conversa era engraçada. Nunca ninguém tinha estado tão em perigo por minha causa como esta pequena rapariga. A qualquer momento eu podia, distraído pela minha ridícula absorção na nossa conversa descontrolar-me e atacá-la antes que me conseguisse segurar, e ela estava irritada porque eu não lhe tinha respondido à pergunta.
- Estou a aborrecer-te? - Perguntei, a rir-me do absurdo daquilo tudo.
Ela deu-me uma olhadela rapidamente, e depois os seus olhos ficaram presos no meu olhar.
- Não propriamente. - Disse. - Estou mais aborrecida comigo mesma. Sou tão transparente, a minha mãe chama-me sempre o seu livro aberto.
Ela franziu as sobrancelhas de mau humor.
Olhei para ela, divertindo-me. A razão de ela estar de mau humor era porque pensava que eu vi através dela muito facilmente. Que bizarro. Nunca me tinha esforçado tanto para compreender alguém em toda a minha vida, ou existência, já que vida não era a palavra adequada. Eu não tinha realmente uma vida.
- Pelo contrário. - Discordei, sentindo-me estranhamente… cauteloso, como se houvesse algum perigo escondido que eu não conseguia ver. Subitamente, estava no limite da corda bamba, a premonição a deixar-me ansioso. – Considero-te muito opaca.
- Então, deves ser um bom avaliador de carácter. - Supôs, fazendo a sua própria suposição, que estava novamente correcta.
- Normalmente. - Concordei.
Dei-lhe um largo sorriso, deixando que os meus lábios se retorcessem para expor os dentes cintilantes e afiados atrás deles.
Foi algo estúpido de fazer, mas fiz repentinamente, inesperadamente desesperado para expressar algum tipo de aviso para a rapariga. O seu corpo estava mais perto de mim do que antes, inconscientemente deslocado no decorrer da nossa conversa. Todos os pequenos marcadores e sinais que eram suficientemente assustadores para o resto da humanidade, não resultavam com nela. Por que é que ela não se encolheu para longe de mim aterrorizada? De certeza que já deve ter visto bastante do meu lado sombrio para perceber o perigo, ela parecia ser intuitiva.
Não reparei se o meu aviso teve o efeito desejado, o Mr. Banner disse para a turma prestar atenção apenas por aquele momento, e ela virou-se de mim. Ela parecia um bocado aliviada pela interrupção, portanto talvez tenha compreendido inconscientemente.
Eu esperava que sim.
Eu reconheci o fascínio a crescer dentro de mim, mesmo enquanto tentava fazê-lo sair. Eu não me podia dar ao luxo de achar a Bella Swan interessante. Ou melhor, ela não se podia dar ao luxo. Eu já estava ansioso por alguma outra oportunidade de falar com ela… Eu queria saber mais sobre a sua mãe, a sua vida antes de chegar aqui, o seu relacionamento com seu pai. Todos as coisas sem sentido que poderia acrescentar detalhes ao seu carácter. Mas cada segundo que eu gastava com ela era um erro, um risco que ela não sabia que estava a correr.
Distraidamente, lançou o cabelo para trás das costas mesmo no momento em que tinha permitido a mim mesmo dar outra respiração. Uma onda particularmente concentrada do seu cheiro atingiu a minha garganta.
Foi como no primeiro dia, como a bola destrutiva. A dor que queimava e a sede fez-me ficar tonto. Tive de agarrar a mesa outra vez para manter o meu corpo na cadeira. Agora eu tinha ligeiramente um bocado mais de controlo. Não parti nada, ao menos isso… O monstro rosnou dentro de mim, mas não gostou da minha dor. Ele também estava preso. Por agora.
Parei de respirar completamente, e inclinei-me o mais longe possível da rapariga.
Não, eu não me podia dar ao luxo de achá-la fascinante…Quanto mais fascinante a achava, mais provável era que a matasse. Eu já tinha cometido dois pequenos deslizes hoje. Teria de cometer um terceiro, que não seria nada pequeno?
Mal a campainha tocou, abandonei a sala, provavelmente destruindo qualquer boa impressão que tinha construído no decorrer da aula. De novo, eu ofeguei pelo ar limpo, húmido lá de fora, como se fosse uma cura para alguma coisa. Apressei-me a criar o máximo de distância possível entre a rapariga e eu.
O Emmett estava à minha espera na porta da sala de Espanhol. Leu a minha expressão louca por um momento.
Como é que correu? Perguntou cautelosamente.
-Ninguém morreu. - Resmunguei.
Suponho que isso é alguma coisa. Quando vi a Alice a andar por aqui no fim, eu pensei…
Enquanto andávamos para a sala, vi a sua memória de apenas alguns momentos atrás, vista pela porta aberta da sua última aula: A Alice de olhos desfocados a andar em direcção ao prédio de biologia. Senti a sua vontade relembrada de ir lá e juntar-se a ela, e depois senti a sua decisão em ficar. Se Alice precisasse da sua ajuda, ela iria pedir…
Fechei os meus olhos com horror e desgosto enquanto me sentava na minha cadeira.
- Não me apercebi que estive assim tão perto. Não pensei que fosse… Não vi que estava assim tão mau. - Sussurrei.
Não estava, ele assegurou-me. Ninguém morreu, certo?
- Certo. - Disse entre os dentes. – Desta vez não.
Talvez fique mais fácil.
- Claro.
Ou, talvez a mates. Encolheu os ombros. Não serias o primeiro a fazer asneira. Ninguém te julgaria de uma forma dura. Às vezes uma pessoa apenas cheira muito bem. Estou impressionado que tenhas resistido tanto tempo.
- Não estás a ajudar, Emmett.
Eu estava revoltado com a sua aceitação da ideia de que eu mataria a rapariga, de que isso era de algum modo, inevitável. Ela tinha culpa de cheirar tão bem?
Eu sei quando me aconteceu… Ele lembrou-se, trazendo à tona metade de um século, para uma rua suja, onde uma mulher de meia-idade estava a tirar os seus lençóis secos de um estendal amarrado entre duas macieiras. O cheiro a maçãs era forte no ar, a colheita tinha acabado e as frutas rejeitadas estavam espalhadas pelo chão, os buracos nas cascas deixavam escapar as suas fragrâncias como grossas nuvens. Um campo recém cortado de feno era um fundo de paisagem para o cheiro, a harmonia. Ele andou pela rua, indiferente à mulher, para fazer um recado de Rosalie. O céu lá em cima estava púrpura, laranja acima das árvores. Ele teria continuado a andar pelo caminho das carroças e não haveria nenhuma razão para lembrar-se daquela tarde, não fosse por uma repentina brisa que soprou os lençóis brancos como velas e levou o cheiro da mulher até o rosto de Emmett.
-Ah. - Gemi calmamente. Como se a minha própria sede não fosse o suficiente.
Eu sei. Eu não durei nem metade de um segundo. Eu nem pensei sequer em resistir.
A sua memória tornou-se demasiado explícita para eu aguentar.
Saltei da cadeira, os meus dentes trincaram-se fortemente o suficiente para cortar aço.
- Esta bien, Edward? - Señora Goff perguntou, assustada pelo meu brusco movimento. Conseguia ver o meu rosto na sua mente, e eu sabia que eu parecia longe de estar bem.
- Me perdona. - Murmurei, enquanto me lançava pela porta.
- Emmett, por favor, puedas tu ayuda a tu hermano? - Perguntou, gesticulando sem solução para mim enquanto eu me apressava para sair da sala.
- Claro. – Ouviu-o dizer. E já estava bem atrás de mim.
Seguiu-me até o lado mais longe do edifício, onde me alcançou e pôs a mão no meu ombro.
Empurrei a mão dele para longe com uma força desnecessária. Teria quebrado os ossos de uma mão humana, e os ossos do braço ligados a ela.
- Desculpa, Edward.
- Eu sei. - Dei profundos suspiros, à procura de ar, tentando clarear a minha cabeça e os meus pulmões.
- É tão mau como aquilo? - Perguntou, tentando não pensar no cheiro e no sabor na sua memória enquanto perguntava, não tendo muito sucesso.
- Pior, Emmett, pior.
Ele ficou quieto por um instante.
Talvez…
- Não, não ia ser melhor se eu acabasse logo com isto. Volta para a sala, Emmett. Eu quero ficar sozinho.
Virou-se sem dizer nenhuma palavra ou pensamento e caminhou rapidamente. Ele ia dizer à professora de Espanhol que eu estava doente, ou a baldar-me, ou dizer que eu era um vampiro perigosamente fora de controlo. A desculpa dele realmente importava? Talvez eu não voltasse. Talvez eu tivesse que partir.
Voltei para o meu carro novamente, para ficar à espera do fim da escola. Para me esconder, novamente.
Eu podia ter usado o tempo para fazer decisões ou tentar reforçar a minha explicação, mas, como um vício, eu vi-me à procura através dos murmúrios de pensamentos que emanavam do prédio da escola. As vozes familiares destacaram-se, mas agora eu não estava interessado em dar ouvidos às visões de Alice ou às reclamações de Rosalie. Encontrei a Jessica facilmente, mas a rapariga não estava com ela, então continuei à procura. Os pensamentos de Mike Newton chamaram a minha atenção, e eu acabei por a encontrar, num ginásio com ele. Ele estava triste, porque eu conversei com ela na aula de Biologia. Ele estava a pensar sobre a sua reacção à conversa quando algo surgiu do nada…
Eu nunca o vi a conversar com ninguém a não ser uma palavra aqui ou ali. Claro que ele acabou por achar a Bella interessante. Não gosto da maneira que ele olha para ela. Mas ela não parece estar muito interessada nele. O que é que ela disse? “Pergunto-me o que tinha ele na passada segunda-feira.” Algo assim. Não parece que ela se tenha importado. Não deve ter sido uma grande conversa…
Falou consigo mesmo, a convencer-se a não ser pessimista daquela maneira, feliz pela ideia de que Bella não estava interessada na sua troca de palavras comigo. Isso incomodou-me um pouco mais do que o aceitável, então parei de ouvi-lo.
Pus um CD com música violenta no leitor, e aumentei o som até que não conseguisse ouvir mais vozes. Tinha de me concentrar bastante na música para me manter longe dos pensamentos de Mike Newton, para espiar a rapariga inocente…
Fiz batota algumas vezes, enquanto chegava o fim da aula. Não estava a espiar, tentava convencer-me. Eu estava apenas a preparar-me. Queria saber exactamente quando é que ela ia sair do ginásio, quando estivesse no estacionamento… Eu não queria ser surpreendido.
Enquanto os estudantes começavam a sair das portas do ginásio, eu saía do meu carro, sem saber por que é que fiz aquilo. A chuva estava fraca - ignorei isso enquanto estava lentamente a saturar o meu cabelo.
Eu queria que ela me visse aqui? Estava à esperava que ela viesse e falasse comigo? O que é que eu estava a fazer?
Não me mexi, apesar de ter tentado convencer-me a mim mesmo a voltar para o carro, sabia que o meu comportamento era repreensível. Mantive os meus braços sobre o meu peito e respirei bem devagar enquanto a observava passar devagar por mim, os seus lábios caídos nas extremidades. Ela não olhou para mim. Algumas vezes lançou os olhos em direcção às nuvens com uma careta, como se a ofendessem.
Estava desapontado quando chegou ao seu carro antes de passar por mim. Será que teria falado comigo? Será que teria falado com ela?
Entrou numa carrinha vermelha suja da Chevy, um monstro robusto que era mais velha que o seu pai. Observei-a a arrancar a carrinha. O motor velho roncou mais alto que qualquer veículo no estacionamento. E então, pôs as mãos em direcção ao vento quente. O frio era desconfortável para ela, não gostava nem um pouco disso. Passou os seus dedos pelos cabelos emaranhados, esticando os nós através da corrente de ar quente, como se o estivesse a secar. Eu imaginei como seria o cheiro daquele compartimento da carrinha, e rapidamente me desfiz desse pensamento.
Ela olhou ao redor enquanto se preparava para fazer marcha a trás, e finalmente olhou na minha direcção. Olhou para mim por apenas meio segundo, e tudo o que consegui ler nos seus olhos foi surpresa, antes de virar os olhos para outro lado e passar a marcha-atrás. E então travou repentinamente, e a traseira da carrinha ficou a alguns centímetros de bater no carro de Erin Teague.
Espreitou pelo espelho retrovisor, a sua boca estava aberta com o constrangimento. Quando o outro carro passou por ela, olhou todos os pontos cegos duas vezes e então saiu da área do estacionamento tão cuidadosamente que me fez sorrir. Era como se pensasse que a sua carrinha decrépita fosse perigosa.
O pensamento de Bella Swan poder fazer mal a alguém, independentemente do que estivesse a conduzir, fez-me rir quando a rapariga passou mesmo por mim, a olhar fixamente para a frente.

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